Poucos cineastas mantém um sentido de contemporaneidade, filme a filme, como Radu Jude. O cineasta de “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” (2021) e “Não Esperes demasiado do Fim do Mundo” (2023) volta este ano em boa forma com “Kontinental’25”, um drama que se aventura pelo sentimento de culpa de uma oficial de justiça engrenada num mundo capitalista e liberal que não se cansa de fazer vítimas, e que tanto serve como critica política e social como delicado estudo de uma personagem com notórias marcas de “deslocamento”.

Humor nunca falta ao cineasta romeno, o rei da sátira no que toca a sentir o pulsar do seu país e da Europa em geral, como se vê nos primeiro momentos da película em que, desta vez, se foca na Transilvânia, em particular Cluj, uma área geograficamente ligada à Roménia, mas com um histórico político e cultural muito conectado à Hungria. É daí que vem a nossa protagonista, Orsulya Ionescu (Eszter Tompa), tão presa entre a cidadania romena e as origens húngaras, como à ética que uma vez lecionou na universidade e que agora será despertada por uma tragédia. 

E por falar em tragédia, é com um pobre candidato a sem abrigo, Ion Glanetasu (Gabriel Spahiu), uma daquelas figuras que só conhecemos o nome e a vida através de uma peça jornalística exploratória, que o filme abre, quando ele vagueia por um parque público recheado de atrações na forma de dinossauros aberrantemente cómicos. Se inicialmente ele apanha garrafas de plástico pelo chão, urina em caixotes, embirra com um cão robótico e pede um emprego ou uns trocos a todos com que se cruza, mas mais tarde terá a desagradável surpresa de perceber que está em marcha um plano para o desalojar. O ato leva a uma reação extrema que vai se refletir – num sentido de angústia pelo peso da culpa – na funcionária judicial que preparou o despejo. 

Claro está que no meio disto tudo encontramos a acidez habitual dos filmes de Jude, com bicadas na gentrificação das cidades e de alterações urbanísticas em nome do capital e do crescimento económico. Neste caso, o homem foi desalojado porque se planeia para o espaço mais um hotel, mas por aqui há também um intenso olhar arquitetónico e urbano (tal qual o fez com as ‘estradas da morte’ no seu filme anterior) sobre a Transilvânia e a sua relação entre a Roménia e Hungria, materializada num conjunto de planos dos edifícios históricos e modernos de uma região em profunda marcha para a descaracterização absoluta – uma descaracterização que também transparece nas múltiplas pessoas com que Orsulya se cruza, repletas de ideias de intolerância, espelhando assim o rosto de uma sociedade historicamente fragmentada. 

Pessoas e Cidade, que fazem parte das agendas políticas dos fazedores da urbanidade da nossa vida e que elegemos de quatro em quatro anos, estão assim em destaque num filme onde a sátira e o drama se juntam com sensibilidade, e onde as mudanças das urbes servem de espelho à história de uma mulher que encontra na alienação e imediatismo hedonista a resposta para um problema estrutural. Por isso mesmo, quando o marido e filhos vão para férias na Grécia, Orsulya encontra-se com Fred (Adonis Tanta em modo hilariante), um seu ex-aluno de Direito Romano que agora trabalha nos Uber Eats da vida e carrega no lombo uma mochila apaziguadora para os seus colegas do Hindustão com que lida no dia a dia. A noite entre os dois servirá de analgésico, pois o mundo continua a girar e o “progresso” está numa marcha imparável. E Radu Jude está lá para, na forma de mais uma “tira” digital, se assumir como o mais moderno, no seu foco na contemporaneidade, dos cartonistas cinematográficos.

Mais tagarela do que é costume, mas sempre ácido na sua análise de comportamentos sociais numa Europa selvaticamente capitalista, Radu Jude volta a mostrar estar grande forma. E ainda que não consiga equiparar este seu exercício ao estrondo que os seus dois filmes anteriores provocaram por todo o mundo, “Kontinental’25” tem muito mérito além do seu argumento corrosivo.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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