Dois anos depois de conquistar a Berlinale com “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental”, um ataque brutal à hipocrisia da sociedade atual, o romeno Radu Jude regressa, deste vez em Locarno, com outra aventura ácida que não deixa a contemporaneidade em paz.
Não fossem as claras gorduras (bem calóricas) que encontramos espalhadas um pouco por todo o filme, e “Do Not Expect Too Much from the End of the World” poderia agarrar o status de culto e o selo de obra-prima como a sua longa-metragem anterior. E por gorduras entendam-se sequências e (demasiados) pequenos apontamentos sem real retorno no prazer que tanto se acumulam como se estendem em demasia. Radu Jude pode, e muito bem, questionar se existe um tempo certo para sequências como a das cruzes à beira da estrada, ou múltiplos momentos em que apenas ouvimos uma música e vemos Angela a conduzir, mas a montagem tem de entender que se há uma quebra de ritmo e um arrefecimento do interesse do espectador, é meio caminho para que as pessoas percam o interesse no filme, principalmente se não entrarem (rirem e refletirem) sobre as mil e uma gags e diálogos que se arrastam a história. Aliás, são duas as histórias que serviram de apoio ao filme de Jude, novamente baseado em fait divers: a de um assistente de produção, abusado laboralmente, que acabou por morrer na estrada; e a da realização de um vídeo para uma empresa sobre segurança no trabalho.
Em “Do Not Expect Too Much from the End of the World”, que vai buscar o seu titulo a uma frase de Stanislaw Jerzy Lec, seguimos Angela (Ilinca Manolache), uma assistente de produção em situação precária que tem como missão ajudar no desenvolvimento de um vídeo encomendado por uma empresa austríaca com filiais na Roménia. Passado grande parte do tempo dentro de um carro, sempre com Angela num vai e vem louco, o filme vai revelando personagens no seu caminho, destacando-se a diretora de marketing da empresa austriaca, interpretada por Nina Hoss, e uma aparição de Uwe Boll, que mais uma vez aborda a sua luta no ringue contra os críticos.
Claro está que esta incursão de Jude, que também é sobre a produção de “conteúdos” por entre hipocrisias laborais, não deixa ninguém incólume, incluindo a Ucrânia, a Rússia, a União Europeia e, claro está, a sociedade romena.
Esteticamente o filme é uma orgia de preto e branco granulado de alto contraste, com interlúdios onde o cinema vampiriza os vídeos de baixa resolução, cheio de filtros, das redes sociais. E, claro, por trás de tudo isto está uma atriz, Ilinca Manolache, a vender o corpo e alma ao seu realizador, tal e qual a protagonista de “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental”. A romena preenche a sua Angela com camadas e camadas de ironia, sarcasmo, drama e comédia, desde o momento que se levanta e tropeça nua no seu quarto para se preparar rapidamente para durante umas 16 horas por dia fazer pequenos biscates numa Bucareste entupida de trafego.
Sempre corrosivo e provocador, Radu Jude não deixa Angela passar todo o tempo sozinha, mas apenas lhe dá a hipótese de uma rapidinha com um amigo que trabalha na Uber, mostrando assim que não é apenas no trabalho a sua precariedade, mas também na vida pessoal.



















