Conta-se que Diógenes de Sinope ( 412 ou 404 a.C – 323 a.C.), um filósofo da Grécia Antiga a quem Platão se referiu como “o Sócrates demente”, teria vivido num grande barril e perambulava pelas ruas como uma sacola (quem não a tivesse era o verdadeiro “deficiente” na sociedade). E diz-se, através de múltiplas histórias reunidas por Diógenes Laércio, na sua obra Vidas e Opiniões de Filósofos Eminentes, que Diógenes carregava com ele uma lamparina em plena luz do dia. Um dia, questionaram o porquê, ao qual respondeu: “Estou à procura de um homem honesto”.
Mais de dois mil anos depois, Marek Šulík acredita que encontrou o seu homem honesto, neste caso uma mulher, e com a “sua lamparina” (a câmara) e uma equipa de cinema aponta-a à advogada eslovaca e ativista anticorrupção Zuzana Čaputová, que se tornou a primeira mulher a servir como chefe de Estado da Eslováquia.
Estreado como filme de abertura do Festival Internacional de Documentários de Ji.hlava, onde competiu e ganhou o prémio principal (na secção Opus Bonum), o filme de Marek Šulík – simplesmente intitulado “Ms. President” – chegou agora ao Festival Black Nights de Tallinn, inserido na competição da novíssima secção do certame dedicada aos registos documentais (Doc@PÖFF).
Integridade e honestidade parecem ser as palavras-chave que movimentam a escolha e observação, de descendência no cinema verité, que Šulík coloca sobre Zuzana Čaputová, que surge como figura elegível após um escândalo conectar a morte de um jornalista de investigação e da sua companheira a um polvo mafioso com ramificações políticas. Eventos que corroeram a credibilidade dos políticos num país que estabeleceu a sua individualidade como nação em 1992, quando declarou-se um Estado soberano.
Seguindo cronologicamente os eventos, que serão mais facilmente absorvidos e acompanhados pelo público local, cientes dos meandros de tudo, Šulík tanto visita os bastidores da presidente, como acompanha os seus atos oficiais, onde não faltam visitas e o apoio à Ucrânia, entretanto invadida pela Rússia, e encontros com múltiplos líderes mundiais, como o Papa Francisco ou Emmanuel Macron, por aqui visto como um exemplo liberal a seguir na barreira à travagem da Extrema Direita. O Covid e as guerrilhas políticas internas são fortes entraves durante a presidência de Zuzana, que não se livrou de múltiplos ataques dos mais variados quadrantes, muitos dos quais – como vemos – recorrem à misoginia e a sentidas ameaças de morte, a ela e à família. Ocasionalmente, porque tudo está ligado entre si, é também chamada a cena a Zuzana mãe, que tanto tem de lidar com a oncologia do pai como de uma das filhas, dando ao filme uma camada um pouco mais complexa do lidar com a maternidade e manter um cargo político de relevância extrema.
No meio disto tudo, onde não faltam artimanhas da sua equipa de comunicação a guiar a presidente pelas bravas marés, Šulík deixa transparecer que Čaputová efetivamente manteve a sua integridade durante toda a sua estadia na presidência, mas pagou um preço alto por isso, fundamentalmente a nível pessoal.
Claro está que um experiente montador e realizador como Šulík constrói a narrativa que bem entende através da seleção criteriosa do material que pretende mostrar, criando uma imagem de Zuzana à sua medida que facilmente pode ser atacada por quem tem uma visão muito mais distorcida da sua presidência. Ainda assim, seja na engenharia cinematográfica, seja no arquivo de imagens e eventos que servem como relatos históricos e até (em bruto) factuais, “Ms. President” funciona como um documento importante, especialmente na captura de uma atmosfera (bem palpável) do atribulado caminho até à desilusão. É que Čaputová assumiu a presidência com altos ideais e otimismo, mas progressivamente vai-se assistindo a um desconsolo, angústia e desilusão, sendo a sua decisão de não se candidatar novamente, arranje-se a razão que se quiser, o culminar do triunfo do pessimismo em relação à máquina política e à separação dela dos interesses privados.




















