Tsai Ming-Liang regressa à Mostra de São Paulo com “De Volta Para Casa”

(Fotos: Divulgação)

Há 21 anos, o malaio radicado em Taiwan Tsai Ming-Liang realizou um filme sob encomenda do Brasil: Aquário, segmento integrante da longa-metragem Bem-Vindo a São Paulo (2004). A produção foi articulada pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde o cineasta é presença assídua desde 1997, ano em que o evento exibiu The River. Agora, num momento em que Tsai se dedica sobretudo à videoarte e a uma série de experiências com realidade virtual, a Mostra exibe um novo trabalho inédito, descrito como um documentário: Back Home (Hui Jia), apresentado no Brasil com o título De Volta Para Casa.

Antes de chegar à América do Sul, o filme estreou no Festival de Veneza, onde a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI) concedeu a Tsai o Prémio de Carreira FIPRESCI 100, alusivo ao centenário da associação, que reúne críticos e jornalistas de todo o mundo.

Na justificação oficial, a FIPRESCI sublinhou que o galardão reconhece “a compreensão que Tsai tem do cinema, não apenas como entretenimento e prática de lucro, mas como forma de arte que requer tempo, cuidado e meditação”. E acrescenta: “A sua liberdade em desafiar restrições e definições estereotipadas fazem dele o artista ideal para ser homenageado pela nossa Federação em seu centésimo aniversário.”

Embora já não se aventure em narrativas de jornada como Vive L’Amour, que lhe valeu o Leão de Ouro em 1994, Tsai afirmou recentemente, em entrevista à Berlinale, que o seu objetivo atual é “conseguir perder-se”. Segundo o realizador, De Volta Para Casa nasce desse impulso: “Não sou mais jovem e percebo que já não tenho a força para rodar certos planos como antes, mas sinto que o meu interesse hoje se concentra em gestos que desindustrializem o cinema, pensando sempre no grande ecrã”

Tsai Ming-liang em foto oficial do Festival de Locarno

A consagração de O Buraco (The Hole), em Cannes, onde recebeu o Prémio da Crítica em 1998, marcou um ponto decisivo na carreira de Tsai Ming-Liang, sempre centrada nas cidades e nas solidões que nelas habitam. “Eu faço filmes silenciosos porque os barulhos da cidade nos servem como trilha sonora”, disse o realizador ao C7nema durante a Berlinale de 2020, quando venceu o Teddy Award Queer com Days. Essa dimensão de silêncio e contemplação tornou-se o eixo da sua linguagem — e é também a marca dominante de De Volta Para Casa (Back Home).

O protagonista, Anong, é um dos muitos laosianos que emigraram da sua terra natal. No início de 2025, ele regressa para rever a família. Em Tsai, partir e regressar são gestos espelhados: ambos revelam a condição de quem nunca pertence inteiramente a lugar algum. “Falo de homens em instâncias distintas da linguagem, que não falam a mesma língua, mas se encontram”, explicou o cineasta em Locarno, numa das raras descrições diretas do seu cinema.

Nos últimos meses, Tsai tem participado em sessões especiais que celebram os 20 anos de The Wayward Cloud (2005), um musical erótico e insólito sobre corpo, sexo e desejo, que parodia a tradição canora asiática. “Preciso manter os meus filmes de ontem vivos, pois só pela trilha do passado é que o futuro pode chegar”, afirmou o realizador. “A partir de 2017, passei a trabalhar com modelos de captação de imagem que não me permitem fazer closes nem outras conjugações do verbo cinematográfico clássico — mas que me habilitam a descobrir novas texturas. É um porvir.”

A 49.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo decorre até 30 de outubro, mantendo o lugar de Tsai Ming-Liang como um dos últimos poetas do cinema de contemplação — um autor que filma o silêncio como quem escuta o tempo.

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