Da abertura com Questlove e os Earth, Wind & Fire ao fecho com Alicia Keys, a mais recente edição do Festival de Tribeca confirma a ideia de que a música há muito deixou de ser apenas um elemento lateral dos principais festivais de cinema norte-americanos, mas uma peça central que se estende bem além de uma secção que tradicionalmente lhes é dedicada.
Se Sundance (1978) ajudou a legitimar o documentário musical e o cinema independente em geral, e se o SXSW (nascido em 1987 como festival de música, introduzindo o cinema e a interatividade a partir de 1994) modernizou o cruzamento festivaleiro entre música, cinema, tecnologia e cultura emergente, Tribeca (2002) entrou depois para dar a essa lógica uma escala nova-iorquina.
Por isso mesmo, entre 3 e 14 de junho, o festival não olha para a música como um adereço nem como intervalo festivo entre a exibição de filmes, mas sim como trave-mestra. E isso mesmo pode-se ver na sua extensa programação, sobre a qual lançamos um olhar mais atento.
O documentário musical como presença viva
Fugindo à mera peça de nostalgia, Earth, Wind & Fire (To Be Celestial VS That’s the Weight of the World), realizado por Questlove, coloca Maurice White dos Earth, Wind & Fire no centro de uma travessia pela música negra, espiritualidade e iconografia pop. O filme chega depois de Summer of Soul (2021) e confirma Questlove como um dos grandes curadores contemporâneos da memória musical afro-americana. A atuação dos Earth, Wind & Fire com os The Roots posterior à exibição demonstra a ambição do documentário musical em viver além da sessão de cinema.
A mesma lógica atinge Sara Bareilles: Good Grief, de Josh Alexander, que se foca no regresso de Sara Bareilles ao estúdio, sete anos depois de Amidst the Chaos. O filme parte da gravação de um álbum para falar sobre a dor e o luto, mostrando como a criação musical evita que a vida se deixe consumir pela perda.
A encerrar Tribeca, Alicia Keys: Girl From Hell’s Kitchen devolve Alicia Keys ao território que a formou, Hell’s Kitchen, Nova Iorque, sempre a partir de memórias familiares, numa construção autobiográfica. A sessão de encerramento inclui ainda uma presença especial de Alicia Keys e uma conversa com a artista e One9, realizador do filme.
Em Frampton, de Rob Arthur, recuperamos Peter Frampton, chamando a cena figuras como Ringo Starr, Bill Wyman, Tom Morello, Sheryl Crow, Alice Cooper, Cameron Crowe e Kate Hudson, enquanto Mumford & Sons: The House Band, de Sam Jones, acompanha uma digressão com convidados como Noah Kahan, Darius Rucker, Lainey Wilson e Maggie Rogers. Uma atuação acústica soma-se ainda à sessão.



Também programado, Trinity: The Story of The LOX, de Bill Horace, não separa os arquivos, a carreira e a presença física, pegando no trio de Yonkers e transformando a história de Sheek Louch, Styles P e Jadakiss numa reflexão sobre a indústria. A estreia é acompanhada pela atuação dos rappers.
De génese mais política, Jail Time Records, de Dione Roach e Steve Happi, visita a prisão de New Bell, nos Camarões, para seguir o primeiro estúdio de gravação prisional do continente africano e três artistas encarcerados, enquanto Noga acompanha a cantora israelita Noga Erez à medida que a guerra rebenta no seu país natal e a sua relação com o colaborador de longa data, Ori Rousso, tem de enfrentar novos obstáculos. A dupla atua em formato acústico após a sessão.
Já Alejandro Sanz: When No One Sees Me revisita o espanhol como figura transnacional, enquanto Travis Barker: Louder Than Fear centra-se no baterista dos Blink-182 e no trauma posterior a um acidente de avião, com conversa com o músico após a estreia.
O retrato artístico surge ainda em Guggi, sobre o pintor irlandês Guggi e a sua passagem da notoriedade pós-punk para a solidão da pintura; The Best Summer, onde Tamra Davis regressa a imagens da digressão Summersault, de 1995, servindo como arquivo alternativo dos anos 1990; e Mouth Full of Golds, de Lyle Lindgren, um documentário sobre Famous Eddie (Eddie Plein), o empresário sediado em Brooklyn que inventou as grillz removíveis modernas e mudou o rosto do hip hop.
O concerto filmado já não é televisão de luxo
Uma das mais relevantes transformações audiovisuais que Tribeca acolhe de braços abertos é a forma como o concerto filmado ganhou um novo estatuto na última década. Exemplo disso é a exibição de Katy Perry: The Lifetimes Tour – Live from Paris, realizado por Paul Dugdale e apresentado como um filme-concerto captado com 60 câmaras durante a digressão The Lifetimes Tour. Perry estará presente em Tribeca para uma conversa.
Dos palcos teatrais chega Hadestown: The Musical, de Brett Sullivan, que leva ao ecrã o musical de Anaïs Mitchell, reunindo no West End os cinco membros principais do elenco original da Broadway (Reeve Carney, André De Shields, Amber Gray, Eva Noblezada e Patrick Page). Temos ainda Time Warp, de Allison Berg, sobre uma companhia de teatro drag no Wyoming que recria ao vivo, em simultâneo com a projeção de The Rocky Horror Picture Show (1975).
A dança entra na pista com The Symphony of Dance, um documentário sobre Derek e Hayley Hough e a digressão homónima, seguido de atuação em palco e conversa. Recuperam-se ainda The Last Play at Shea (2010), que liga a história da equipa de basebol New York Mets à carreira do músico Billy Joel, e Daft Punk’s Electroma (2006), exibido numa remasterização 4K. A sessão será seguida de uma conversa com Thomas Bangalter e Cédric Hervet.




A ficção também canta (e dança)
Tribeca não nos vai dar música apenas através do registo documental, com o brasileiro Aly Muritiba a guiar-nos pelos sonhos de uma jovem das favelas que se tenta afirmar em Funk, enquanto Airport BLVD, passado em Austin, no Texas, mergulha no terreno político e social da gentrificação e da comunidade.
Depois da sua exibição em Berlim, Árru, de Elle Sofe Sara, encontra nova vida em Nova Iorque para mostrar o yoik tradicional sámi através de uma história sobre os riscos da mineração, a sobrevivência indígena e o trauma pessoal. Já Next Life, de Drake Doremus, com Emilia Clarke, Édgar Ramírez e Jack Farthing no elenco, traz também o jazz (em Londres) para um romance marcado por duas linhas temporais.
Digno de realce é também Imaginal Disk, de Amanda Kramer, que expande o universo do álbum homónimo dos Magdalena Bay. A sessão inclui ainda atuação da dupla norte-americana de indie pop e uma conversa com a cineasta.
A estes títulos somam-se Here I’m Alive, de Joshua Z Weinstein, uma ficção nova-iorquina movida pelo rap underground e jazz espiritual, onde migrantes, trabalhadoras do sexo e sonhadores lutam pela sobrevivência; Turn It Up!, de Sam Scott, que visita o terreno do terror a partir de uma banda cujo novo riff de guitarra esconde uma melodia amaldiçoada; e Zejtune, de Alex Camilleri, que alarga o mapa musical do festival através de um road movie maltês, num tributo direto à música tradicional folclórica għana.


A dança soma também batidas em Only What We Carry, de Jamie Adams, um drama improvisado e filmado em seis dias que parte do reencontro entre uma bailarina (Sofia Boutella), a irmã (Charlotte Gainsbourg) e o antigo coreógrafo (Simon Pegg). O grande trunfo pop é a inclusão de Quentin Tarantino no elenco, que regressa à representação para interpretar um benfeitor misterioso cuja chegada mexe com o passado do grupo. Já Mother Future Self, de Tori Lancaster, situa-se num campo experimental de dança no Maine e evoca a aproximação e rutura iminente entre duas amigas; enquanto Ephemera, de Shan Jiang, leva-nos à Xangai pós-pandémica e a duas mulheres que se cruzam numa noite.
Nas curtas, Ultimatum, dos irmãos Jean-Luc e Desirée Mwepu, olha para as audições brutais na Royal Ballet School, enquanto Kiloran Bay, com Alan Cumming e Jack Wolfe, transporta, no formato de curta-metragem musical, uma ferida emocional queer para a paisagem escocesa das Ilhas Hébridas.
Destaque ainda para a curta-metragem Roar, de Jesse Weglein, integrada na sessão competitiva “Whoopi’s Wonderful World of Animation”, com o K-pop a ser o eixo de uma menina neurodivergente, Tora, que não consegue comunicar verbalmente com o mundo à sua volta, servindo os seus auscultadores como um escudo contra o excesso de estímulos sensoriais.
O regresso de Madonna e a morte mal anunciada do videoclipe

O momento mais pop do festival foi sem dúvidas a exibição de Confessions II, que acompanha o novo capítulo musical de Madonna e que foi apresentado através de uma conversa entre a artista e Jimmy Fallon.
Nos videoclipes, Tribeca olha para eles como cinema curto, dedicando-lhes grande atenção. A seleção inclui “Elegantly Wasted”, dos Hermanos Gutiérrez com Leon Bridges; “Beautiful”, de Linda Perry; “Fingers Crossed”, de The Moth & The Flame; “Animus Ignis”, de Shawty Sweat; “Grave”, de Kid Cudi; “Kill Me Fast”, dos Three Days Grace; “Window”, dos Foo Fighters; “Long Way To Go”, dos The What Four; “Mr Electric Blue”, de Benson Boone; “Everyone’s A Star”, dos 5 Seconds of Summer; e “New York Is Dead”, de LP Giobbi com Little Boots.
E há ainda “Archbishop Harold Holmes”, de Jack White, realizado por Gilbert Trejo. Com John C. Reilly como um televangelista excêntrico, o vídeo traz consigo o imaginário cinematográfico associado ao ator.
Quando a música pensa o audiovisual
Na sua agenda, Tribeca programou diversas conversas sobre o espaço da música no futuro do cinema e da televisão, como How Music Is Powering the Future of Film & TV, que procura abordar a expansão do registo musical para algo mais que uma peça publicitária. Na mesma linha, a conversa Independent Music: A Temperature Check olha para a música indie e para os seus mecanismos de distribuição, procurando discutir as ferramentas que ajudam à sobrevivência dos artistas.
A presença de Finneas (Finneas O’Connell) em conversa com Anthony Willis é também um momento alto do evento, tal como Este Haim (da banda Haim) em diálogo com Will Gluck. A este bloco juntam-se ainda Concert & Conversation: Hrishikesh Hirway Moderated By Adam Scott; Moving Beyond Expectations: A Conversation with André De Shields; Storytellers – Teyana Taylor with Janicza Bravo; e The Architecture of Unease: Haley Z. Boston & Colin Stetson on Story, Sound, and Suspense, uma conversa que leva o som e a sua composição para o centro da construção do suspense.
O arco completa-se com Bruce Springsteen, que vai receber a distinção Harry Belafonte Voices for Social Justice Award, e com Solange, que celebra os dez anos de A Seat at the Table.
Há música a mexer com os videojogos

Há dois títulos de videojogos apresentados que merecem uma nota neste mapa musical. Primeiro, There are No Ghosts at the Grand, um musical lovecraftiano com canções originais, e depois Rockbeasts, um RPG de gestão rock & roll sobre uma banda grunge dos anos 90, que da garagem passa para os estádios, sem querer perder a sua identidade.
A conversa World Building Through Sound and Design, centrada na forma como a música, o desenho de som e a interação constroem mundos dentro dos videojogos, expande também o universo musical, tal como a sua incursão em formas como o podcast, que entra em jogo com Radiolab Live with Latif Nasser & Lulu Miller. Apresentado no Tribeca Podcast Stage, a experiência ao vivo conta com a presença do duo de jazz Vuyo Sotashe e Chris Pattishall.
Sim, é verdade, nada disto é cinema em sentido estrito, mas tudo pertence à lógica em que a música já não se restringe a fronteiras fixas. E ainda bem.

