
Coreógrafa cujo trabalho cruza corporalidade, espiritualidade e joik — o canto tradicional do povo sami —, Elle Sofe Sara estreia-se na realização com um filme onde a dança e a narrativa se entrelaçam para contar a história de uma família confrontada externamente com a ameaça de um projeto mineiro nas suas terras ancestrais, e internamente com o despertar de rancores antigos e silêncios dolorosos.
Produzido com um orçamento modesto, Árru estreou mundialmente em Berlim, na secção Panorama, e aborda questões como resistência ambiental, trauma intergeracional e tradição cultural.
Em conversa com o C7nema, Elle Sofe Sara falou sobre o ativismo indígena, o silêncio comunitário, a herança cultural e a transposição da linguagem coreográfica para o cinema.

Trabalha como coreógrafa, como foi o salto para o cinema e como é que este filme começou?
Começou como um musical. Queria fazer um musical sobre esta situação difícil em que muitas famílias da nossa comunidade se encontram, com estas grandes empresas que querem usar as terras da pastorícia das renas para mineração, ou também moinhos de vento, cabanas ou outras indústrias. E temos estas feridas do passado que tornam as dinâmicas familiares difíceis, que nos impedem de falar sobre coisas difíceis.
Queria criar esta personagem feminina que está no meio de tudo e que mantém a família unida, enquanto ela própria carrega um peso, sente o peso emocional de o fazer.
A opção de ter canções foi algo difícil de convencer os produtores. Não foi um problema com as partes cantadas em si…
Foi fácil convencer os produtores a entrarem neste projeto?
Sim, acho que muitos produtores ficaram muito envolvidos com esta ideia de um filme musical sami — “ok, o que é isto?” — muito entusiasmados com esse sabor. Mas, ao mesmo tempo, enquanto desenvolvíamos o guião, tínhamos muitos joiks (forma tradicional de canto sami) e cenas de dança que foram cortados pelos produtores, ou pedidos para cortar, porque percebemos que este género é bastante novo na Europa. Não há muitas pessoas a trabalhar com musicais e exige um tipo diferente de pré-produção, porque a música e a dança têm de ser feitas antes e integradas no guião. A composição, tudo isso. É diferente, exige coisas diferentes na produção.
Alguns elementos do teu trabalho lembram-me o trabalho e o ativismo de Ella Marie Hætta Isaksen Isaksen, com o joik e a luta ambiental contra os moinhos de vento. Existe uma nova geração de artistas e ativistas na comunidade sami?
Diria que a Ella Marie é a nova geração. É uma jovem artista sami, cantora e compositora.
Sentes-te ligada a ela na mesma linha de mostrar o que acontece na comunidade sami ao exterior?
Sim, acho que somos muitos artistas sami agora presentes em arenas internacionais. Temos a Máret Ánne Sara, cuja exposição está na Turbine Hall em Londres, e muitos artistas sami a viajar pelo mundo. A Ella Marie é uma voz muito presente na comunidade sami, uma jovem ativista muito forte.
O filme está parcialmente nessa arena do ativismo pela terra, mas também inclinado para o silêncio e a história pessoal.
Falando das cenas de dança: fazer coreografia num palco é uma coisa. Aqui tiveste de discutir como filmar, como captar a essência, conseguir o melhor plano. Houve muitas discussões sobre como mostrar essas sequências?
Sim, trabalhámos muito as imagens. Estivemos nas localizações com jovens de 16-17 anos a ocupar os lugares, fizemos storyboard para usar depois nas filmagens. Tínhamos pouco tempo e um orçamento muito baixo, então tivemos de preparar tudo ao máximo. Discutimos muito os planos, que tipo de plano, exemplos.
Mas a Cecilie Semec vem do documentário, então também dizia: “Elle, sigo o meu instinto?” Às vezes tens só 15 minutos e decides fazer um plano longo, seguir o momento. Ela é incrível nisso.
E trabalhar com dança ou joik não é simplesmente dizer “ok, vai… acabou”. Tens de entrar no estado certo. Às vezes seguimos a estrutura, outras vezes deixamos fluir.

Há uma cena muito bonita em que Maia começa a cantar e corpos nus aparecem à volta dela. O que significa para ti? Como surgiu essa ideia?
É uma cena muito emocional e alinhada com o meu trabalho artístico anterior. Surgiu de um sonho que a minha prima teve, com corpos nus na paisagem. Desenvolvi a partir disso. Descobrimos que na localização havia uma mina antiga dos anos 70, inacessível, e decidimos usar aquele espaço.
Tentámos entrelaçar o abuso do corpo com o abuso da terra. Nós também somos natureza. Tentámos cruzar isso de forma quase estranha.
O filme começa com uma abordagem mais pictórica da cultura e depois torna-se mais íntimo. Como encontraste o equilíbrio, na escrita, entre o lado pessoal e a crítica à lei do silêncio, mantendo respeito pela tradição?
Vivo numa pequena aldeia sami e venho de uma família sami. Sinto que, se alguém deve falar, tenho esse direito porque vivo nesse ambiente. Claro que é difícil criticar. Uma em cada duas mulheres sami já experienciou a violência doméstica. Está também dentro da minha família. Também os agressores fazem parte dessa realidade.
Trabalhei este projeto de forma muito profunda com o argumentista Johan Fasting. Tivemos muitas discussões sobre o que é certo, o que não é. Acho que o filme mostra que há amor pela nossa comunidade, mas é necessário falar de tabus. Caso contrário nunca há mudança. Tenho três filhas e sinto que agora é o momento de mudar.
Essa mudança vem mais da geração mais nova do que dos homens mais velhos?
No filme vemos três mulheres da mesma família com posições diferentes. Há esperança na nova geração. Há uma evolução.
Curiosamente, mostras três gerações de mulheres, mas quem é abusado é o irmão. Porquê essa escolha?
Também é um tabu. Falamos muitas vezes apenas das mulheres abusadas, mas também há crianças, homens e rapazes. É igualmente terrível, independentemente de quem seja.
A Maia não é a típica personagem principal porque não é ela a abusada, é a familiar próxima. A filha adolescente e o irmão são, de certa forma, extensões dela. Quando estás muito ligado à tua família, a dor deles é quase a tua.
Falando da mineração e das indústrias: acreditas mesmo que podemos parar isso? Podemos parar o capitalismo?
Não sei. Mas há esperança em falar. Vemos hoje, com Gaza, Irão, EUA, que uma voz pode ter poder. Não sei se podemos mudar o capitalismo, mas talvez possamos falar à nossa maneira.
Eu falava mais da esperança na família, em quebrar ciclos e padrões. A nova geração tem uma abordagem diferente.
Queres continuar a trabalhar no cinema e na coreografia?
Adoro estar num set. Quero muito fazer mais filmes e continuar esta investigação com joik, dança e cinema. Sinto que é a minha voz artística, também presente na coreografia e no teatro.
Tens um novo projeto?
Só uma ideia muito inicial para um novo filme. Foi um caminho longo até terminar este, mas quero continuar.

