Única produção falada em português entre as 12 concorrentes da secção International Narrative Competition de 2026 do Festival de Tribeca, em Nova Iorque, Funk deleita-se nas pétalas mais íntimas da chamada “flor do Lácio” (o idioma de Camões), a extrair o sumo mais provocativo que a gramática normativa culta não comporta, ou não suporta. Num desempenho radiante de escultura de personagem, Duda Santos não fala; ela metralha. Despeja saraivadas quentes de verbetes capazes de enrubescer as orelhas mais púdicas. Canta a palavra “boceta” tantas vezes que dá novas dimensões estéticas ao termo usado para designar a força feminina pelas vias do sexo e do desejo. Fala sem se preocupar em enxaguar da boca os “palavrões” que gargareja, no seu empenho para virar diva do “funk putaria”, espaço onde as MCs podem mandar o machismo para o quinto dos infernos. Quentura igual se nota no jogo cromático da fotografia de Inti Briones. Como se diz no jargão carioca: é um filme “pancadão”.

Essa dimensão de redescoberta de verbos, advérbios, adjetivos e conectivos afins é uma marca autoral do realizador desta narrativa extremamente direta… crua e sem gorduras… no debate sobre modos de afirmação. Aly Muritiba costuma ser festejado por Deserto Particular, o tratado ultrarromântico que levou ao Festival de Veneza em 2021, quando o mundo ainda tossia no sufoco da covid-19. A sua obra, anfíbia entre o documentário e a ficção, é pontuada por uma linha de filmes de contágio, capazes de inflamar a perceção dos afectos pelas vias do mistério. Ali, brincou com o desterro sentimental pelas vias dos desabafos, quando um dos seus protagonistas diz: “Levei muito tempo pra saber que felicidade e salvação nem sempre andam juntas”. É uma frase que cabe perigosamente a muitas personagens de uma filmografia que pode ser tratada como um inventário sobre as crueldades do mundo. E o mundo onde Duda Santos desfila sagacidade e ímpeto, numa atuação em estado de graça, é brutal. A brutalidade da polícia em Funk é para se colar às nossas retinas como um sinal de alerta. É o sexismo de farda. É o racismo do distintivo.

Ao falar de modos de amar conturbados, agora no âmbito de mãe e filha, Funk pavimenta a natureza das afetividades que Muritiba persegue, ou pela qual é liricamente acossado, desde o supracitado Para Minha Amada Morta, a sua estreia na longa-metragem de ficção, lá em 2015. É da sua verve autoral seguir personagens que se deslocam das ditas normatizações do mundo em nome de um querer desmedido, sobretudo por corpos ou almas ausentes. São deslocamentos movidos seja pela passionalidade da vingança, como se viu no seu início ficcional; por trombadas da adolescência, caso de seu seminal Ferrugem, vencedor de Gramado em 2018; pela devoção a um eu lírico, o cartunesco Jesus Kid, uma delícia de comédia que lhe deu o troféu Kikito de melhor realização, em Gramado, em 2021; ou por uma idealização passional, como é o caso do supracitado Deserto Particular, que o levou à terra das gôndolas.

Neste trabalho nascido, e bem parido, em Tribeca, talvez o seu exercício mais potente na direcção de atores, Muritiba desbota o moralismo da canção feita para os bailes de favela, e não só, do Rio de Janeiro, e deixa que a “putaria” se imponha como um aríete na abertura de caminhos para uma mulher vectorizada pelas opressões da pobreza. Difícil não pensar em Wanda (1970), de Barbara Loden, diante da guerra que se trava perante nós, eletrificada na montagem de Karen Akerman e Paulão de Barros, que evita objetificações mesmo quando a sensualidade explode.

A MC encarnada por Duda, Sabrina, cresceu num contexto de violência, no Morro dos Prazeres, que serviu de sede e território dramatúrgico ao obrigatório thriller Pacificado, Concha de Ouro em San Sebastián em 2019. No Prazeres de Sabrina, a polícia militar bate forte, é corrupta. Lá, os tiros cantarolam numa sinfonia cruel pelas noites. A mãe, Priscilla (MC Nem, radiante em cena), também sonhou ser estrela, mas foi prejudicada pelo abuso dos homens que amou e dos DJs que a enganaram. A peleja de Sabrina é não levar esse fado adiante e cortar com os laços históricos de silenciamento de uma cultura em apartheid social que adora invisibilizar quem é periférico. A voz de Sabrina, qual rouxinol de bico afiado, afeito à ousadia, busca nos termos mais chulos lirismo, a cantar a plenos pulmões, em busca de uma saída ao determinismo. Com isso, Aly dá-nos uma fábula em que a Cigarra desafia a Formiga e festeja os poderes redentores da arte.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
funk-a-cigarra-da-periferia-que-desafia-o-determinismoDifícil não pensar em Wanda (1970), de Barbara Loden, diante da guerra que se trava perante nós, eletrificada na montagem de Karen Akerman e Paulão de Barros, que evita objetificações mesmo quando a sensualidade explode.