É impossível falar de um novo cinema soviético na década de 1960, principalmente movido por novas gerações que beneficiaram com a descentralização da produção, sem irmos um pouco atrás, a 1953, à morte de Josef Stalin.
Já com Eisenstein falecido e Stalin no poder, o cinema da URSS, muito centrado em Moscovo, dedica-se à monumentalidade, a filmes comemorativos e ao culto à personalidade (por exemplo: A Batalha de Stalingrado, de Vladimir Petrov; A Queda de Berlim, de Mikheil Chiaureli), afundando-se numa irrelevância estética, além da sua forma de pura propaganda. Findo esse período, e com a morte de Vsevolod Pudovkin (1953), Dziga Vertov (1954) e Alexander Dovzhenko (1956), abriu-se um espaço para uma renovação que começaria a ganhar forma particularmente depois de 1956 e da proclamada “destalinização” soviética, ou o “Degelo de Khrushchev”, que apesar de apregoar o relaxamento da repressão política e da censura não abandona a necessidade de manter vivo o “realismo socialista” na sua cultura.
É nesse contexto que, no final da década de 1950, vão surgir nomes como Mikhail Kalatozov e o seu “Quando Voam as Cegonhas” (vencedor do Festival de Cannes), onde ainda impera o virtuosismo e a dependência de histórias da II Guerra Mundial, mas já com um espírito diferente, sem que ainda se possa falar de uma nova estética. Isso sente-se mais vincadamente em “A Balada do Soldado”, de Grigori Chukhrai, em 1959, mas foi na década de 1960, com nomes como Sergei Paradjanov, Andrei Tarkovski e Otar Iosseliani, que a renovação do cinema soviético (paralelamente já havia uma renovação literária) se sentiu com maior vigor. Mas se estes nomes, submetidos à ostracização do regime (do não financiamento ou autorização para fazerem os seus filmes, à prisão e exílio), conseguiram chegar ao Ocidente ainda antes da Perestroika, outros, ou antes, outras, não o conseguiram.

Aproveitando a ressurreição dos Estúdios Odessa em 1954, após migração para o Tashkent Film Studio (Uzbekfilm) durante a 2ª Guerra Mundial, surge o nome de Kira Muratova (1934-2018), nascida na Bessarábia – atualmente, parte da Moldávia mas, à época, parte do Reino da Roménia -, filha de pai russo e mãe romena. Licenciou-se em realização em 1959, no Instituto Gerasimov de Cinematografia (VGIK), em Moscovo, e após assinar dois filmes com o então marido e colega de estúdio Oleksandr Muratov – “By the Steep Ravine” (1962) e “Our Honest Bread” (1964)- avança a solo para “Brief Encounters” (Breves Encontros, 1967) e “The Long Farewell” (O Longo Adeus, 1971), dois objetos cinematográficos que chegaram – em versão digital restaurada 4K – aos cinemas nacionais.
Nascidos já depois das enormes tensões entre o chefe de estado, Nikita Khrushchev, e a classe inteletual que percorreu vários anos após 1963, e que refrearam as tendências liberais na cultura, os dois filmes “levaram” por tabela, sendo consequentemente deixados num “canto”.
Circulando ambos em torno de um triângulo – em “Brief Encounters”, amoroso; em “The Long Farewell”, de afetos familiares -, as duas obras mostram raros focos no feminino, ora subjugados (ou reduzidos) por uma entidade omnipresente, ora enjaulados em dilemas internos que se transformam em obsessões. “Ela não é uma mulher, mas uma encarregada[do Comité Distrital local]”, ouve-se em “Breves Encontros”, quando a nossa protagonista, Valentina [a própria Muratova], visita uma bloco de apartamentos e nega o acesso a eles à população, pois estes não têm água canalizada. “Os aquedutos existem desde o Império Romano, mas ainda não chegaram aqui”, diz Valentina à sua paixão, Maksim (Vladimir Vysotsky), um geólogo que noutra fase da vida teve uma relação com Nadia (Nina Ruslanova), uma jovem que veio do “campo para a cidade” e agora trabalha para Valentina.




Avaliando a condição da mulher soviética, segundo múltiplas perspetivas, com um sentido estético de apresentar o passado e o presente, via uma montagem descontínua, de recurso curioso aos flashbacks sem muletas visuais, “Breves Encontros” não apenas renega o “realismo socialista”, mas mostra falhas burocráticas de um sistema que se dizia perfeito, enquanto lida com duas paixões assíncronas, num jogo de afeições marcadas pela ausência de um vórtice emocional com o qual não se imagina viver sem. Acusado de burguês e formal, foi censurado na URSS durante 20 anos, só podendo “ganhar asas” depois da apelidada Glasnost – política implantada, juntamente com a Perestroika, durante o governo de Mikhail Gorbachev.
O mesmo destino teve “The Long Farewell”, filme onde a montagem, por vezes de cortes abruptos, e os estímulos sonoros se intensificam, mantendo-se visualmente as marcas detalhistas na “perseguição” da câmara aos seus protagonistas, seja frente a eles, seja num olhar de esguelha perante obstáculos que se atravessam no caminho, seja quando se encontram literalmente de costas voltadas.
No centro do filme está Yevgenia (Zinaida Sharko), uma mãe neurótica e controladora que entra numa espiral paranoica quando descobre que o seu filho Sasha (Oleg Vladimirsky) prefere viver com o pai, que o deixou quando era pequeno, em Novosibirsk.




Novamente marcado pelo espectro da ausência, de uma temível solidão, Muratova vai mais longe na sua confrontação do quesito do indivíduo e qual o seu papel, firmando mesmo um confronto direto, em cenas profundamente marcantes do seu filme, entre o individual e a sociedade; entre um filho e uma mãe, que no medo do envelhecer não parece ter intenções de o deixar seguir em frente; na escrita de uma carta alheia, onde as repressões e falhas que tomam conta da protagonista são mais fáceis de identificar em alguém com quem não se tem uma ligação emocional.
Que estes “Breves Encontros” com a filmografia de Kira Muratova nas salas comerciais portuguesas não sejam “O Longo Adeus” à autora no nosso circuito, mas sim um até já.




















