Assombrado historicamente pelo coronelismo (termo dado à gestão extraoficial dos senhores de terra) e pela estratégia de pão e circo dos médias de massas, o Brasil buscou a catarse, o refúgio e a (auto)defesa no teatro de Ariano Suassuna (1927-2014) para rir das suas desgraças trágicas e se reconectar com a artéria pícara das suas raízes ibéricas. Em 1956, uma peça dele, O Auto da Compadecida, lançou-se como um exercício cénico risonho do heroísmo pícaro, ou seja, a malandragem retórica como saída para enfrentar a submissão, a ordem imposta (quase sempre por armas). O protagonista, João Grilo, é um espelho sul-americano de Pedro Malasartes, personagem da coletânea medieval de cantigas “Cancioneiro da Vaticana”, datada dos séculos XIII e XIV, mitificado no imaginário português por usar a lábia para vencer os desafios (associados à pobreza). É um Sancho Pança sem a sombra de Quixote. O Grilo de Suassuna, cujo Velho Mundo é o Sertão, no Nordeste, teve direito a um escudeiro, Chicó, que se orgulha do seu próprio aposto: “o cabra mais frouxo que conheço”.

Diferentemente da hierarquia de Cervantes, Chicó não é um servo do Sancho de Ariano, mas, sim, amigo, é o que tem de melhor. Por quase sete décadas, o povo brasileiro riu com esses dois nos palcos e, há 25 anos, aprendeu a gargalhar com as peripécias sociológicas deles também no audiovisual, graças a uma minissérie lançada pela TV Globo, em 1999 – hoje no ar no streaming Globoplay -, com direção de Guel Arraes. Dois anos depois da sua estreia no pequeno ecrã, aquela versão radicalmente inovadora para os moldes narrativos da televisão (na edição e na forma de interpretação dos diálogos cómicos) ganhou um corte para o cinema, e virou fenómeno nas bilheteiras. Vendeu mais de 2 milhões de ingressos. Era uma adaptação bastante fiel das rubricas do texto teatral, dando vida a um universo muito particular, autoralíssimo, calcado numa cidade fictícia, chamada Taperoá. Passadas duas décadas e meia, a sua geografia rendeu uma continuação, hoje em circuito em seu país de origem.


Fazer uma continuação do Auto nunca pareceu uma saída óbvia, diante do respeito sacro de que o legado de Suassuna desfruta, ampliado ainda pela produção de uma (outra) minissérie decalcada dos seus escritos (agora, literários), e considerada uma obra-prima estética: A Pedra do Reino (2007), pilotada pelo realizador Luiz Fernando Carvalho. Havia, contudo, no zeitgeist da América Latina, uma necessidade de que o riso picaresco do microcosmo de Ariano voltasse à cena (no caso, às salas). Mudanças históricas promovidas por avanços recentes da ultradireita (com Bolsonaro e Javier Milei), picos de inflação e a explosão das milícias em áreas de rarefeita força aquisitiva geraram a necessidade de um heroísmo possível. No cinema, os esforços de a indústria sul-americana fabricar vigilantes (como o chileno Mirageman, ou os brazucas Capitão Nascimento e Doutrinador) não geraram frutos a granel. O afã heroico mais sólido sempre foi o dos clowns que desafiaram os latifundiários e gangsters, como o Didi de Renato Aragão e os Jecas do ator e produtor Amácio Mazzaropi (em títulos como Sai da Frente). Nada mais adequado do que João Grilo e Chicó voltarem, num momento de transformação social ocasionada pela recente eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (também um nordestino de origem pobre).

Com base nas ideias de Suassuna, o próprio Guel escreveu com João Falcão (em colaboração com Adriana Falcão e Jorge Furtado) O Auto da Compadecida 2”, que se passa vinte anos depois do original, e consegue ser tão ágil (e engraçado) quanto a peça que lhe serve de matriz. Lançada no último 25 de dezembro, sob pesada concorrência de Sonic 3, a produção liderou o ranking de bilheteira do seu país no dia de Natal, ao ser visto por cerca de 176 mil pessoas em 836 salas de 471 complexos. Foi a maior receita de abertura de um filme brasileiro desde a pandemia, ao arrecadar 4 milhões de reais. Expandiu a sua ocupação de mercado para 1152 salas de 650 multiplexes, num momento em que um conterrâneo, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, nomeado aos Globos de Ouro, contabiliza cerca de 3 milhões de ingressos vendidos.

Dirigida por Guel em duo com Flávia Lacerda, esta Parte Dois é engenhosamente fotografada por Gustavo Hadba, que vive uma fase de apogeu (com a luz) desde “O Grande Circo Místico, lançado em Cannes, em 2018. O olhar de Hadba realça o colorido trágico de um Nordeste sem chuva e de lavouras esturricadas. As bocas de Taperoá estão secas de água e mais sedentas ainda de esperança. Por sorte, os lábios de Chicó não ressecaram. A imaginação humedece a língua e faz verter saliva como uma cachoeira de bravatas, sempre de braços dados à religião – pois, afinal, estamos diante de um auto. É Selton Mello (realizador do obrigatório O Palhaço”) que dá vida a esse medroso profissional, numa estonteante atuação. Chicó agora ganha o pão com a venda de santinhos de madeira, a contar causos sobre a ressurreição de João Grilo, parceiro que não vê faz tempo. Sofre com o desaparecimento da mulher, Dona Rosinha (Virginia Cevndish), que saiu de cena na poeira da estrada. Sempre que põe a sua cachola a bolar maquinações, as suas invenções são retratadas por Flávia e Guel em forma de animação, com direito a uma antológica situação na qual explica que nasceu mulher, mas tornou-se homem ainda no “bucho” da mãe, diante do anseio dela por um menino para chamar de seu.  

Numa fase de cinto mais apertado do que de costume, pelo arrochar do sol e da miséria, Chicó recebe a visita inesperada do seu camarada Grilo, interpretado magistralmente por Matheus Nachtergaele, o Sandro Cenoura de Cidade de Deus(2002), que tomou Cannes de assalto, em 2008, com A Festa Da Menina Morta, a sua única experiência na direção até agora. Ele e Selton têm uma covalência plena. Um levanta; o outro, corta, a garantir cestas em série.


O regresso de Grilo para Taperoá coincide com uma campanha eleitoral no local, disputada por um fazendeiro (que mais parece o Yosemite Sam dos Looney Tunes), o coronel Ernani (Humberto Martins, no seu mais inspirado desempenho), e o radialista Arlindo (Eduardo Sterblitch), uma raposa mediática. Como Grilo é encarado pela população como um milagre do Terceiro Mundo, por ter sobrevivido aos tiros de um bando de cangaceiros no primeiro filme, ele passa a ser uma figura estratégica na luta pelo voto do povo. Ciente da sua importância, o palhaço de cara limpa passa a jogar com os dois rivais, qual um Yojimbo do sertão. É um arlequim que parece servir dois amos, mas sempre a extrair o melhor dos dois, como um Toshiro Mifune de chão batido.

Juntam-se ao seu exército de Brancaleone Antônio do Amor (Luis Miranda, hilário) e a própria Rosinha, que regressa empoderada, como camionista. Do outro lado da Força, chega a filha de Ernani, Clarabela, construída por Fabiula Nascimento numa composição cartunesca, que lembra as personagens de “Tiny Toons”, numa mistura de Lilica com Felicia que é hilária. Os encontros dela com Chicó misturam o lúdico com a picardia, numa aeróbica cénica.

Nunca se viu um Guel Arraes tão cinemático, numa troca orgânica com a sua habitual parceira de TV (e de cinema), Flávia, construindo uma comédia farsesca à moda “John Wick”, de direção de arte detalhista e inventiva, assinada por Yurika Yamasaki. A montagem em cadência frenética de Fábio Jordão é essencial para o dinamismo na condução dos planos curtos, sempre abertos à reflexão. Entre muitos quiproquós enfrentados por Grilo e Chicó, toda a geopolítica de uma nação que sofreu com o cabresto dos latifúndios explode em cena na patafísica das aristocracias falidas. Ri-se dos que mandam (ou acham que o fazem). Ri-se com os que (supostamente) obedecem, mas reagem com a sabedoria inerente à arte de sobreviver e de caçar um prato de comida a cada dia. Mais marxista, impossível.   

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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