Aquele artista que um dia tenha ofertou às retinas do mundo o alumbramento chamado “Le Grand Bleu” (em PT; “Vertigem Azul”/ no BR, “Imensidão Azul”), voltou às salas com um poema de amor pequeno de duração (92 minutos) e aparente ambição, já que foi filmado via smartphone, durante a pandemia, e intitulado de “June and John”. O artesão em questão é Luc Paul Maurice Besson, estrela da publicidade que filmou a sua primeira longa-metragem (“Le Dernier Combat”) em 1983 e tomou as telas de assalto há 40 anos com “Subway”, com o qual promulgou uma espécie de vaga chamada Cinéma du Look.
Associaram Jean-Jacques Beineix (de “Betty Blue”) e Leos Carax (com “Mauvais Sang”) a essa onda, na qual o estilo (com requinte plástico ao extremo) parecia se sobrepor aos debates teóricos, marcantes de uma pátria conhecida por filmes palavrosos. Os trabalhos seguintes de Besson seguiam veios narrativos de maior fluxo verbal e de maior apara na formatação dramatúrgica das personagens. Apesar disso, eles permaneceram fiéis a essa linha du Look, com direito a um filme de culto (“La Femme Nikita”) e ao blockbuster que abriu o Festival de Cannes em 1997, “O Quinto Elemento”.
A experiência com a assassina Nikita levou-o a se especializar em enredos sobre valquírias da contemporaneidade, o que gerou sucessos de causar inveja a Hollywood, como “Lucy” (que faturou US$ 469 milhões em 2014) e a adaptação de BDs “Les Aventures Extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec”, vista por 1,6 milhões de espectadores em França. Esse apreço por figuras femininas que se afirmam pela guerra, pela violência, assegurou-lhe a sua obra-prima, “Léon: The Professional” (1994), que ajudou a fazer de Natalie Portman uma promessa.
No alvorecer dos anos 2000, depois de ter presidido o júri de Cannes que concedeu a Palma de Ouro a Lars von Trier (por “Dancer In The Dark”), Besson firmou-se mais como produtor executivo, após a fundação do misto de produtora e distribuidora EuopaCorp, que faturou bastante com as franquias “Taken” (com Liam Neeson) e “Transporter” (com Jason Statham). Numa época que vai de 2001 a 2018, ele escreveu sem parar e filmou menos. Como realizador, ele consumiu muito tempo com versões para as telas da sua própria literatura: os livros para miúdos “Arthur and the Minimoys”.
Passou cada vez mais a procurar refúgio na palavra e a conter a exuberância de planos em que buscava mais o encantamento do olhar da plateia do que fazer os guiões avançarem. Perdeu uma fortuna com a adaptação da BD “Valerian”, em 2017, e tentou correr atrás do prejuízo num regresso aos thrillers sobre matadoras com “Anna” (2019), que também fracassou no gosto popular.
A nomeação ao Leão de Ouro para “DogMan”, no Festival de Veneza de 2023, onde ganhou o prémio Graffetta d’Oro, resgatou um pouco do prestígio que Besson teve lá atrás, mas sem muito brilho. A sua marca foi sinónimo de um tipo de espetáculo em que a imagem era envelopada com o máximo de esmero, com uma direção de fotografia exuberante, de colorido rebuscado. Essa marca parecia haver se perdido nos anos 2000 e 2010 – com exceção do pouco citado “Angel-A”, de 2005 – até que “June and John” chegou, com um olhar encantado (e encantador) para as paisagens de uma Los Angeles esvaziada, que tira muita da sua força da cinematografia (em estado de graça) de Tobias Deml. Essa mesma força espetacular faz-se notar nos primeiros trailers de “Dracula: A Love Tale”, que o cineasta lança ainda este ano.
Um dos aspetos mais tocantes de “June and John” é a subversão de preconceitos sociais que a exclusão financeira impõe. Sempre que os protagonistas, consumidos por um afã quase adolescente, encontram figuras de menor rendimento económico à beira de avenidas gigantes, a câmaa capta olhares que deixam o público em dúvida sobre o caráter daquelas pessoas. Na dramaturgia habitual de Hollywood, essas pessoas seriam aves de rapina, famintas por explorar dois jovens que parecem endinheirados. Essa é a rotulação clássica do lúmpen combatida pela arte desde o século XIX (vide Baudelaire). Em Besson, as expectativas capitalistas são quebradas em nome de uma crença na condição humana. Os desvalidos economicamente são os dinâmicos do casal do título, enquanto o Estado armado (a polícia), bancário e milionários afins são adversários. É um olhar maniqueísta, mas que gira a roda sociológica dos arquétipos nestes nossos tempos de Trump e de Elon Musk. Ali, reside o Besson du Look e o Besson humanista de “León”.
A trama lembra um pouco “Badlands” (1973), de Terrence Malick[que em PT é “Noivos Sangrentos” e no BR é “Terra de Ninguém”], sobretudo pelo arrojo da câmara de smartphone de Deml em fitar o céu. O firmamento parece traduzir o posto do que a vidinha plúmbea de John (Luke Staton Eddy) virou na sua rotina como analista de contabilidade de um banco. Um garagista maltrata-o, o gerente repudia-o e um colega inunda-o de piadas sexistas e recusa-se a emprestar-lhe 20 dólares. Quando o rapaz finalmente parecia ter chegado ao fundo do poço, o seu caminho cruza com o da misteriosa June, papel que Matilda Price executa com brilhantismo. Ele encontra-a no metro, em linhas de destino contrário, e fica fascinado pelo seu charme. Após uma busca incessante por ela online, este homem encontra a sua paixão e a moça acaba por aparecer no seu trabalho. A questão é que ela vai até lá armada, rouba, arrasta John para uma fuga por rotas rodoviárias desérticas e tem sexo com ele nos lugares mais incertos. Por onde vai, ganha a simpatia dos transeuntes e o ódio das instituições. É um tratado vivo e afrodisíaco da transgressão.
Nota-se que ela tem uma doença. A finitude bate à porta. No entanto, a paixão de John está lá para escudá-la e tornar aquela coqueluche um bem durável… eterno no olhar de quem vê Besson soltar as mãos da burocracia e ser um criador inquieto de novo. Ele filmou tudo em 2020, no sufoco da covid-19, com uma equipa de 12 pessoas, em estilo de guerrilha. Extrai uma apoteose de Matilda e de Stanton Eddy e oxigena as fórmulas dos amores desvairados que Hollywood, nas mãos do politicamente correto, forçada a renegar os pares românticos sob o cabresto das patrulhas ideológicas woke, deixou de querer fazer esses filmes. A indústria francesa ainda faz boas coisas nesse filão (vide “Partir Un Jour”, que abriu Cannes), que Besson encampa cheio de som, de fúria e de experiência acumulada.




















