Seria um sonho para Oscar Restrepo, protagonista de Um Poeta (Un Poeta), um dia ser capaz de publicar versos como os de De los goces del cuerpo, de Harold Alvarado Tenorio, um colombiano como ele, mais velho, hoje octogenário e aclamado, que escreveu, na vida real, estrofes de sabedoria. Segundo ele: “A amizade, velha moeda errante, agora é oferecida por anciãos,/ doentes, animais, bêbados e loucos./ Nada sabem, os homens, dela: a fugitiva dos séculos”. É o tipo de ensinamento de que Oscar precisava no seu périplo profissional pela arte de escrever. O anseio de ser grande — no continente que gerou Gabriela Mistral, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Raúl Zurita, Bruna Mitrano, Meira Delmar — levou a personagem central da longa-metragem de Simón Mesa Soto a dedicar a vida à escrita. Só não teve o cuidado de moderar a bebida e de saber travar a língua feroz. A falta de cuidado com esses dois aspetos impediu que a sua potência se transformasse em ato.

Na trama filmada em Super 16 mm pelo realizador de Leidi, Palma de Ouro de Curta de Cannes em 2014, Oscar, interpretado com fluidez por Ubeimar Rios, um ator não profissional, teve a oportunidade de lançar dois livros e de dar aulas, o que, nem de longe, aplaca o seu apetite por prestígio. A obra de criadores como Alvarado Tenorio faz parte dos debates que ele trava com colegas de Letras ao medir o património poético da sua Colômbia, lutando mais por uns do que por outros. A pátria de Gabriel García Márquez viu nascer muitos faróis na literatura. Oscar ambiciona ser um deles. Se bebesse menos, seria mais fácil lá chegar e não estaria, já quarentão, à mercê do quarto que tem em casa da mãe, rejeitado por entes queridos que poderiam amá-lo.

O verbo “desistir” é imposto pela vida a Oscar como um norte inescapável. A crença de que o poema pode levar quem escreve e quem lê à transcendência é o único combustível do seu sonho e da sua coragem. Essa gasolina parece também encher o tanque de uma jovem, Yurlady (Rebeca Andrade), que demonstra ter um talento nato para metáforas, metonímias, aliterações, zeugmas e outras manhas do vernáculo espanhol. Na Medellín filmada por Mesa Soto numa fronteira ténue do naturalismo, ela é um indício de que a chama da invenção lírica arde onde o determinismo económico impõe silêncio e ausência.

Sob a granulação do quadro composto pelo diretor de fotografia Juan Sarmiento G., Um Poeta põe os lugares-comuns históricos de aspereza da América Latina em foco ao mapear a construção de um projeto de parceria artesanal, entre mestre e aprendiz, num rastreio do que a euforia literária pode gerar de transformação prática. Oscar vê em Yurlady uma voz capaz de mudar os paradigmas da poesia na Colômbia. Nela existe virtude estética e a vivência singular das angústias da escassez. A questão é que talvez ela só queira ser uma adolescente que faz as unhas enquanto desfruta, suavemente, do passar dos dias. Para a dinâmica cultural do assistencialismo, ela é um prato cheio para bolsas, projetos de incentivo e verbas públicas. Para Oscar, ela é a projeção do que ele não chegou a ser.

Com delicadeza e uma mirada sociológica cirúrgica, Mesa Soto parte destas duas figuras para fazer de Um Poeta uma das análises mais profundas da aspiração criativa no âmbito da palavra. Mistura humor tragicómico e drama com precisão. Ganhou o Prémio do Júri da mostra Un Certain Regard de Cannes pela sua equilibrada condução de géneros, de um elenco sem formação e das feridas abertas da América do Sul.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
un-poeta-feridas-abertas-do-verso"A Poet" põe os lugares comuns históricos de aspereza da América Latina em foco ao mapear a construção de um projeto de parceria artesanal (entre mestre e aprendiz) num rastreio do que a euforia literária pode gerar de transformação prática