Exímio a lidar com os traumas do passado colonial Filipino e com a turbulenta história do país desde a sua independência de Espanha, em 1898, acompanhando frequentemente os diversos dissabores, ora dos tempos ditatoriais, ora de “democracias” autocráticas, Lav Diaz tem construído um corpo de obra impressionante, assinando cerca de 40 filmes em pouco mais de 25 anos.
Um ano depois de nos presentear em Locarno com “Essential Truths of the Lake”, filme onde voltava a acompanhar o tenente Hermes Papauran (interpretado por John Lloyd Cruz), que já conhecíamos de “When the Waves are Gone” (2022), o qual procura resolver um “cold case” com quinze anos, o cineasta filipino levou este ano até Veneza “Phantasmonia”, um drama que acompanha os problemas psicológicos daqueles que, durante a sua vida, assistiram e participaram em atos de extrema violência. No centro da história está Hilarion Zabala, um antigo militar filipino que sofre do que se chama fantosmia, uma condição psicossomática que o faz sentir odores fantasmas, os quais objetivamente não existem e podem ser intermitentes ou constantes. Possivelmente derivada de um trauma, Zabala procura ajuda psiquiátrica para pôr fim às suas alucinações olfativas, e, para combater isso, é-lhe proposto uma terapia que implica regressar ao serviço militar, além de confrontar o passado e os seus crimes através da escrita.
Entre a expiação e a redenção, Hilarion Zabala consegue regressar à vida militar e ser colocado na colónia penal de Pulo, onde não só vai assistir a novas injustiças, como o aproveitamento desumano de uma jovem para a prostituição, mas igualmente à forma como a doutrinação de homens transformados em militares continua a servir de instrumento de perpetuação do poder de uma elite, que incita à desumanização dos seus peões ao serviço de uma realidade imaginária que perpetua desigualdades nas estruturas de poder.
Com quatro horas e cinco minutos de duração e recorrendo ao seu habitual preto e branco, brincou-se em Veneza que esta era, ao seu jeito, a forma de Lav Diaz fazer curtas-metragens, mas a verdade é que o cineasta – que uma vez disse ao C7nema que não entendia as questões que faziam sobre a duração dos seus filmes, especialmente em tempos de Binge Watching -, entrega em “Phantasmonia” um dos filmes mais acessíveis, diretos e simbólicos na ligação e perpetuação da violência na criação de traumas pessoais e coletivos, com uma clara mensagem de como a degeneração moral pessoal leva a uma degeneração coletiva que, por sua vez, contamina um novo circuito de instituições e pessoas, num círculo vicioso em eterna expansão.
Mas onde, quando e, principalmente, como se elimina esse círculo de violência? Lav Diaz não dá respostas coletivas, mas individuais, através do ato redentor de Zabala, que por entre histórias do passado que nos mostram como assassinou pessoas por um ideal que lhe foi vendido, fossem comunistas, anarquistas (ocupas) ou muçulmanos, nos mais diversos conflitos que encontrou na sua vida militar, agora decide – ele mesmo, e usando a violência – quebrar o círculo, não da violência, mas da injustiça. E ao fazer isso, perpetua aquilo que tenta combater, ainda que evoque uma moral maior, mostrando que o ser humano não se consegue livrar dos pecados do passado, mas que consegue ganhar uma nova visão deles com uma ação mais estoica sobre o presente, o bem e o mal.
Cabe ao ator Ronnie Lazaro (A Lullaby to the Sorrowful Misery) assumir a personagem fascinante de Zabala, o qual, não diferentemente da personagem de Hermes Papauran em “When the Waves Are Gone” tem nele uma manifestação física derivada a um estado de inquietação psicológico que o coloca no seio de uma profunda encruzilhada moral.





















