Lav Diaz: “Continuarei a lutar pelo poder do cinema”

(Fotos: Divulgação)

Nome maior do cinema filipino atual, vencedor do Festival de Locarno em 2014 (From What Is Before), do Prémio Alfred Bauer de Berlim em 2016 (A Lullaby to the Sorrowful Mystery) e do Festival de Veneza no mesmo ano (The Woman Who Left), Lav Diaz regressou à Suíça este ano com o seu mais recente trabalho, “Essential Truths of the Lake”, onde volta a acompanhar o tenente Hermes Papauran (interpretado por John Lloyd Cruz), que já conhecíamos de “When the Waves are Gone” (2022)

Decidi continuar com esta personagem porque havia ainda muito para dizer”, disse Diaz ao C7nema, em Locarno, descrevendo a personagem como “alguém muito comprometido com a sua tarefa, mas com sérios problemas com o sistema”, onde no topo encontramos a “besta”:  ao antigo presidente do país, Rodrigo Duterte.

A própria sinopse do filme, distribuída no festival, explicita as intenções de Lav Diaz, embora no Q&A, depois da exibição da sua obra, ele admita que existem três filmes num só: “Quando questionado sobre o que leva um homem a buscar a verdade, o tenente Papauran diz desanimado que talvez já só queira continuar a infligir dor a si mesmo. Diante dos assassinatos sangrentos e mentiras descaradas do presidente Duterte, ele continua a sua luta para resolver um caso de quinze anos em torno de uma paisagem carregada de cinzas e um lago impenetrável. Tornou-se uma cruz que ele mal consegue carregar, mas que continua a arrastar mesmo assim.

Essential Truths of the Lake

Como polícia, é igual a tantos outros, obcecado pela verdade, mas ele vai além dessa imagem e é uma alma em conflito”, explica Diaz. “E enquanto procura respostas, procura a sua alma. Ele sabe bem que há elementos na sua instituição imunes à cura. Existe todo um sistema acima dele que cria esse conflito. Mas ele não desiste simplesmente, quer mudar as coisas, venha a luta e venha a dor”.

Para construir Hermes, Diaz mostra um trunfo: “Quando era novo trabalhei na polícia de ronda Basicamente dão-nos uma missão numa esquadra e ficamos à espera de ser chamados para alguma confusão. E vamos todos quando isso acontece, para entrevistar pessoas e recolher testemunhos. Depois a polícia investiga. Isso ajudou-me a construir a personagem”

Espesso, rigoroso e extremamente belo nas suas obsessões cinemáticas, nas análises coloniais, pós-coloniais e autocráticas, desta vez Lav Diaz entra um pouco mais no universo das suas personagens que o habitual, procurando respostas para. “Podemos colocar-me ao lado do inspetor do filme. O que procura ele e o que procuro eu? Que faríamos numa ou noutra situação”, diz-nos, explicando um pouco como funciona o seu método de construção de um filme: “Existe uma ideia, algo sempre com a qual temos de trabalhar. Vou tirando constantemente notas. Neste caso, temos um investigador: o que é que ele faz? O ponto de partida era que esse inspector tinha um caso antigo por resolver, mas a partir daí não sabia bem para onde ia. Os  casos por resolver (cold cases) são como nas novelas, que apontam para várias direções. É um trabalho muito complexo, pois temos de pensar em tudo e aí tem de haver alguma disciplina. Neste processo, os atores contribuem com novas coisas, e a natureza também”, disse sorrindo, relembrando que a erupção real de um vulcão foi um elemento chave no processo criativo e mudou o seu filme completamente. “Tenho muita sorte neste aspeto porque não tenho prazos para respeitar. Posso continuar a investigar por muito tempo, alterar as coisas, que não faz mal. Felizmente, sou alguém com tempo para escrever e pensar. Depois de ter o guião feito, segue-se o resto, que levanta também novas questões e direções (…)  Mas tem de haver disciplina e controlo, não é apenas ir andando com as coisas, é preciso ter uma “planta” da coisa.”.

Locarno76, Essential Truths of the Lake de Law Diaz| Locarno Film Festival / Ti-Press

Crítico cerrado do antigo presidente Duterte e do atual Bongbong Marcos (filho do antigo ditador Ferdinando Marcos, que liderou os destinos do país de 1965 a 1986), Diaz não tem pejo em os insultar publicamente, como também fez com Donald Trump e até Vladimir Putin. Quando questionado se não tem receio de represálias, pois afinal das contas estamos a falar de “tudo bons rapazes”, Diaz é taxativo: “Existe o medo e a pressão pelas críticas que faço ao sistema e aos líderes, mas tenho de continuamente lutar contra isso. Se permites que faças parte da própria cultura do medo, então já perdeste. Já vi e vejo pessoas renderem-se a essa cultura do medo. Vejo isso na imprensa, no cinema. Calaram-se e capitularam. Renderam-se ao medo e à paranoia (…) Tens de te manter sempre livre no cinema, na busca de respostas e da verdade”.

Sabendo que o poder do cinema é pequeno no conjunto da narrativa final para derrotar opressores, e que as imagens perderam força pela sua enorme proliferação em múltiplos meios, Diaz promete continuar a lutar: “Vou continuar a lutar para isso, pelo poder das imagens, pelo poder do cinema. (…) o cinema ainda pode prosperar, o cinema ainda pode sobreviver. O cinema ainda consegue mexer com as coisas.(…) A minha luta é continuar a fazer o que faço. O cinema não vai morrer.(…) Os festivais – especialmente aqueles como este – são um santuário do cinema e um local de descoberta. Os festivais são realmente um abrigo.”

Quanto ao cinema das Filipinas, que tem uma enorme história, o cineasta tem certezas: “Há esperança no cinema das Filipinas e espero que a boa geração de jovens que aí está seja corajosa e perspicaz em mostrar as coisas. Espero que sejam trabalhadores comprometidos com a cultura. (…) Eu mesmo não me considero tanto cineasta, mas  educador”.

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