Não têm sido fáceis os trabalhos de preparação de “When The Waves Are Gone”, o novo filme de Lav Diaz. Depois de um adiamento das filmagens devido à erupção de um vulcão, eis que chegou a pandemia Covid-19.
O projeto, muitas vezes descrito como um “O Conde de Monte Cristo” moderno, ou uma variação do seu “The Woman Who Left”, é um dos escolhidos para a secção especial The Films After Tomorrow do Festival de Cinema de Locarno 2020, criada para a edição deste ano para apoiar projetos internacionais de longa-metragem que foram interrompidos por causa da pandemia global.
Coprodução internacional onde Portugal também está envolvido – através da Rosa Filmes – o filme tem por base dois amigos que há 30 anos assaltaram um banco. Um vai para a prisão, o outro volta para a sua ilha natal com o dinheiro e torna-se o seu governante tirano. Por mais de 30 anos, ele mantém o seu amigo preso, mas um dia, durante a estação das tempestades das monções, o prisioneiro é libertado após cumprir os seus deveres como assassino na prisão. Ele deixa a prisão sob a cobertura da noite, num pequeno barco, e segue pelas ondas revoltas do oceano Pacífico, até à sua ilha natal, na ponta leste das Filipinas. Uma vez em casa, ele não reconhece ninguém e ninguém o reconhece. Planeia a vingança e aos poucos vai assassinando as pessoas que rodeiam o seu amigo, e envolve-se com uma mulher que também é amante dele.
“Os meus filmes são reflexos de feridas históricas da colonização espanhola, num jugo imperialista que deixou traumas”, disse Lav Diaz no ano passado ao C7nema, aquando da estreia de “Estação do Diabo”.. “A única forma de eu encarar esses fantasmas é pela imersão. É a partir dela que eu encontro a trilha de universalidade capaz de abrir dores típicas de um filipino para pessoas de outros cantos do mundo. Assim como Hollywood, eu também tenho os meus super-heróis, só que eles não são seres voadores ou mascarados que combatem o crime na violência. O meu herói é Tolstoi. Os meus heróis são os cineastas que me ensinaram a traduzir poeticamente o Tempo, como o húngaro Béla Tarr e o russo Andrei Tarkovsky. Eles renovam a minha fé no mundo. Não existe cinema lento: existe cinema, ponto. A lentidão é da vida.”
Recorde-se que para além deste projeto, o realizador tem ainda em mente – mais uma vez com coprodução portuguesa – filmar em Portugal uma história ligada ao colonialismo. O filme – com o nome temporário de Magellan (Magalhães) – será contado do ponto de vista dos “descobertos”, isto é, um grupo de filipinos que viaja para Portugal de forma a traçar as origens do explorador português Fernão Magalhães no norte de Portugal.
“A ideia da Lav é inverter o olhar entre o colonizador e o império”, disse o fundador da Rosa Filmes, Joaquim Sapinho, ao Screen Daily, no ano passado.



