Filmado em 16mm sob a lente de Vytautas Katkus, diretor de fotografia de “Toxic”, vencedor do Festival de Locarno em 2024, e realizador de “The Visitor”, em competição ao Globo de Cristal do Festival de Karlovy Vary, “Renovation”, o novo projeto da cineasta lituana Gabrielė Urbonaitė, captura com liberdade e precisão as ansiedades de uma mulher à beira dos 30 anos, Ilona (Žygimantė Elena Jakštaitė), que, depois de se mudar para um novo apartamento com o seu namorado Matas (Šarūnas Zenkevičius), descobre que o velho edifício de génese soviética vai entrar em renovações durante 7 meses, o que certamente vai condicionar a vida de quem habita ali, em particular da mulher, que trabalha a partir de casa.
Será a interação de Ilona com Oleg (Roman Lutskyi), um trabalhador ucraniano que participa ativamente na renovação do edifício, mas que revela dotes artísticos, que serve de rastilho para uma interrupção do status quo, um “abanar” do estado das coisas, impulsionando um crescimento das dúvidas e ansiedades na mulher, não apenas quanto ao relacionamento com o namorado, particularmente depois deste ter oficializado o pedido de casamento, em plena celebração dos 30 anos da mulher, mas na sua vida burguesa em geral, onde pressões externas (da mãe, dos amigos) e internas (um perfeccionismo de “condições” ideais) amontoam-se até começarem a transbordar.
“Dramédia” de humor muitas vezes seco com atenção aos detalhes, sempre enquadrado por uma câmara que oferece uma imagem granulada e se encerra em espaços interiores até bem perto do final, “Renovation” captura a poesia dos momentos quotidianos e adquire um duplo sentido já que as operações que se executam no edifício poderão igualmente servir de metáfora para as que se anteveem para vida de Ilona, uma solteira que poderá passar para um novo estado civil, com tudo o que isso representa, enquanto, como lá diz o clichê, continua em busca de si mesmo.
Na sua concretização e no seu arco emocional, é difícil Ilona não se sentir, de certa maneira, “A Pior Pessoa do Mundo”, ao estilo de Renate Reinsve no filme de Joachim Trier. Mas “Renovation”, embora partilhe o espírito das indecisões geracionais do filme norueguês, é um objeto próprio inserido no estudo de relações dentro da urbanidade lituana, com algumas ansiedades peculiares e particulares, como o receio de uma invasão russa da Lituânia, ou pitadas de referências ao decréscimo do turismo no país (que é o meio de subsistência de Matas, que trabalha como guia), a enriquecerem a história.
Destaque para o trio de atores que movimentam o filme – Žygimantė Elena Jakštaitė, Šarūnas Zenkevičius e Roman Lutskyi -, que mais que um triângulo amoroso convocam um tridente de afetos e resoluções.




















