Se há coisa que o cinema se tem debruçado, quase de forma intemporal, mas mais acentuada nas últimas décadas, é com o regresso a casa de personagens que, por circunstâncias várias, partiram para outras paragens. Filmes como “Garden State” ou “Elizabethtown“ mostraram isso, no início dos anos 2000, bem como exemplares bem mais recentes, como o macabro  “O Sucessor” e os mais experimentais e destinados a circuitos festivaleiros “Invention” e este “The Visitor”, uma proposta do lituano Vytautas Katkus que acaba de estrear mundialmente (e ser premiado com a melhor realização) na principal competição de Karlovy Vary.

Após um quinteto de curtas-metragens e trabalhos na direção de fotografia de filmes como “Toxic”, vencedor do Festival de Locarno em 2024, Vytautas chama a cena o ator Darius Šilėnas para o papel de Danielius, um homem que vive com a esposa, Rita (Hanna Mathisen Haga), e o filho, Jonas (Liva Louise Karlstrøm Våsbotn), na Noruega. Partindo sozinho de regresso à Lituânia para vender o apartamento dos pais, um ano após a morte do patriarca, Danielius entra numa jornada silenciosa marcada pela presença de inúmeras personagens com o seu quê de bizarro, como um casal que se interessa pela venda do imóvel e habita momentaneamente com ele no apartamento. É nas múltiplas interações, muitas vezes ausentes de palavras, com rostos familiares e novos amigos, que o filme essencialmente evoca uma fina camada de nostalgia, além de se reportar a drama existencial de “estranheza” sobre alguém que regressa a um local que já não é o seu, mas que ainda persiste em si.

Evitando grandes planos e filmando em 16mm, Vytautas Katkus não se mostra muito interessado naquilo que comumente definimos como “narrativa”, preferindo desfiar um novelo de relacionamentos, com pessoas e lugares, onde doses de confusão, solidão e nostalgia surgem mais através de mecanismos sensoriais (imagem e som) que pelas palavras produzidas pelas figuras que se cruzam com um Danielius na busca por si próprio naquele lugar.

O resultado é um filme com enormes qualidades e virtudes cinemáticas, mas onde é mais complexo a criação de um vínculo emocional com o protagonista, além de pactuar com a sua estranheza de se sentir como um peixe fora da água.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-visitor-um-peixe-fora-de-uma-agua-que-ja-foi-sua Vytautas Katkus não se mostra muito interessado naquilo que comumente definimos como “narrativa”, preferindo desfiar um novelo de relacionamentos, com pessoas e lugares, onde doses de confusão, solidão e nostalgia surgem mais através de mecanismos sensoriais (imagem e som) que pelas palavras produzidas pelas figuras que se cruzam com um Danielius na busca por si próprio naquele lugar.