Alusivo a clássicos de Hitchcock, como “Rope” (1948) e “Dial M For Murder” (1954), o filme espanhol “El Desconocido”, de 2015, conseguiu um feito raro no audiovisual contemporâneo: dar tamanha publicidade ao seu guião que ele inspirou refilmagens em cantos distintos do planeta. “Retribution” – que chega às salas lusitanas com o título de “Retribuição” e no Brasil como “A Chamada” – é a releitura anglófila do script redigido por Alberto Marini a fim de atender a uma demanda do audiovisual hispânico por narrativas de género.

Filmado por Dani de la Torre, com o catalão Luis Tosar no papel principal, o projeto alcançou visibilidade nas telas estrangeiras por fomentar enquadramentos que desafiam as leis da gravidade e explorem as medidas da aceleração. Não há originalidade no seu enredo. Nenhuma. Tudo o que se vê ali já estava em “Speed” (1994), com Keanu Reeves, e “Phone Booth” (2002), com Colin Farrell. O fator desgaste, contudo, não lhe pesou, pois a escrita de Marini abre espaço para a crónica do ethos de uma classe média capitalista. Esse ethos foi bem explorado na primeira adaptação do roteiro para outras peças, no caso, a Coreia do Sul, num remake de Kim Changju.

O que se vê na atual reconstituição da mesma premissa – um homem, num carro, com duas crianças, recebe a ameaça de uma bomba a ser detonada – é menos um conto moral e mais um empenho de se esgarçar a persona heroica de Liam Neeson, sempre eficiente.

Iluminado de modo apolíneo na fotografia de Flavio Martínez Labiano, que fotografou Liam em “Unknown” (2011), o tenso “Retribution” vale pela adrenalina que deseja ao longo da sua sinuosa montagem, impondo-se mais por sua destreza aeróbica do que pela qualidade dos diálogos e pelo rigor de sua estrutura dramatúrgica. Em geral, os filmes estrelados por Neeson numa escala de baixo orçamento não têm essa preocupação. Nem o todo-poderoso “Taken”, o fenómeno que repaginou a carreira do ator, em 2008 (custou 25 milhões de dólares e faturou 227 milhões), tinha. Às vezes, ele pega em bons projetos, como o recente “Memory” (2002) ou “A Walk Among The Tombstones” (2014). Mas, no geral, as suas escolhas gravitam mais pelo prisma da manutenção da sua persona heroica em cena. É o caso aqui, por mais divertido que seja o turbilhão de peripécias motorizados da sua personagem. Há, ainda, uma notável competência do realizador americano de origem húngara Nimród Antal (de “Predators”) para humanizar o espectro predatório da crónica do quotidiano que traça, sem descuidar da ação.

Neeson trata o papel do empresário Matt Turner com a agudeza tchekoviana que lhe é peculiar, mesmo na mais rasteira das histórias: ou seja, põe aquela figura em dúvida a cada gesto. No filme, Matt vê-se em apuros (gravemente) ao levar seus filhos para a escola. No percurso, ele atende uma ligação suspeita onde um sujeito alega existir uma bomba um pouco abaixo do volante. Se ele travar, o explosivo é detonado e todos naquele veículo morrem. Resta a ele seguir no intenso tráfego, fintando obstáculos, até conceder tudo o que o chantagista deseja, ou então virar o jogo.

No trânsito para a língua inglesa, as estruturas narrativas de Marini foram valorizadas, com a aplicação de um verniz trágico. A culpa que move Matt faz parte da sua conexão com um mundo de negócios onde os valores estão em ruínas. É uma pena Nimród não explorar mais esse veio.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
retribution-liam-neeson-em-velocidade-moderada “Retribution” é a releitura anglófila do guião redigido por Alberto Marini a fim de atender a uma demanda do audiovisual hispânico por narrativas de género.