Luca Guadagnino tem sistematicamente revelado um fascínio pelo mundo das elites no seu cinema. Vê-se isso tanto nos seus filmes originais* — Io sono l’amore (2009), Call Me by Your Name (2017), Challengers (2024) —, como nos remakes — A Bigger Splash (2015) e Suspiria (2018) —, nos quais o cineasta italiano observa elites – aristocráticas, intelectuais ou desportivas — não como alvo de glorificação, nem de crítica direta, mas como terreno fértil para a observação da fragilidade emocional e moral que se esconde sob o verniz da sofisticação.
After the Hunt (Depois da Caçada, 2025) prossegue essa linhagem, centrando-se agora no restrito mundo académico norte-americano, com Yale como cenário de exceção e o departamento de Filosofia, liderado por Alma Imhoff (Julia Roberts), como epicentro de um escândalo de violência sexual. A acusação parte de uma das suas protegidas, Maggie (Ayo Edebiri), que afirma ter sido violada por um professor (Andrew Garfield), que é bastante amigo de Alma.
Ainda que a discussão contemporânea desta temática tenha sido reavivada pelo movimento #MeToo, o abuso sexual em estruturas hierárquicas sempre moveu a sociedade, e consequentemente o cinema, a discutir o tema, com questões de classe, género e raça a virem sempre à tona quando se fala de poder ou da falta dele.
Guadagnino abraça essa reflexão sobre o poder e as estruturas sociais que o perpetuam, logo no momento da escolha do local e do ambiente em que a ação vai decorrer. Yale, com os seus edifícios imponentes, bibliotecas monumentais e rituais de exclusividade, é um símbolo de privilégio, de manutenção e elevação do status quo; um espaço onde a moral tende a dobrar-se à ambição e onde as aparências de virtude escondem enormes fissuras na autoridade e nos seus desvios éticos.
Com Ayo Edebiri e Andrew Garfield a encarnarem arquétipos vulneráveis aos clichés, que o filme lentamente desconstrói, cabe a Julia Roberts oferecer suficientes ambiguidades para nos arrastar até ao final do filme. Numa enorme interpretação, é ela que dá ao filme um tom de inquietação ética permanente, que o eleva além de um mero drama sobre vítimas e culpados, vilões absolutos e vítimas inquestionáveis.
Saindo de Veneza com a acusação de fugir da clareza moral, pois ao refugiar o filme e a sua grande protagonista em zonas de sombra, como mentora, cúmplice e espectadora, mas sempre numa posição de poder -, After The Hunt evita tomar partidos e deixa para o espectador avaliar o que é mostrado – daí a outra acusação do filme representar uma regressão ao que o Me Too conquistou, em que o silêncio e a neutralidade são apenas formas de apoio à manutenção desse status quo.
Usando o privilégio como espelho moral, em que o diálogo entre a ambição, a culpa, as verdades subjetivas e as aparências — reais ou simbólicas — entrelaçam-se num retrato inquietante do nosso tempo (e de todos os tempos), Guadagnino mantém a elegância e o rigor visual que definem o seu cinema. A sua câmara desliza por espaços marcados pela exclusividade — material, social e intelectual — com a serenidade de quem observa mais do que julga.
Mas essa aparente distância não é sinónimo de neutralidade, pois o espectador sente o desconforto ao encarar um mundo académico de exceção, saturado de contradições. E é ao olhar para as pessoas que o habitam — com as suas dúvidas, falhas e vulnerabilidades — que Guadagnino encontra o ponto de contacto com o comum dos mortais, onde a sofisticação é apenas um perfume caro num jogo eterno de aparências: quando o cheiro azeda, o fedor é igual em todo o lado.
*mesmo que alguns adaptados da literatura




















