Embora jamais refute a certeza de haver uma espécie de vale em torno da casa usada como eixo da sua estrutura dramática, o enervante A Própria Carne fala sobre confinamento e os delírios persecutórios gerados pela opressão dos corpos num espaço onde a liberdade deixou de ser um direito. Bertolt Brecht (1898-1956), poeta e dramaturgo sempre bem-vindo para desafiar a submissão, alertou: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” O cogito brechtiano, ideal para o distanciamento, talvez não seja o parâmetro de análise mais pertinente a um filme que nos convida à imersão — e, por isso mesmo, precisa ser evocado para deslindar armadilhas. Até as dos géneros dramatúrgicos que atravessa.
Estamos perante um thriller psicológico… convulsivo como The Innocents, de Jack Clayton (1961)… no qual as sombras e as camadas sonoras de ruídos sugerem verdades ou apreensões alternativas daquilo que os sentidos percebem. Tal como se via no clássico dos anos 1960 com Deborah Kerr (1921-2007), o que começa como desconforto e suspensão de certezas percorre a rota do horror, permitindo que o sobrenatural se manifeste. Assim, uma história transversal à Guerra do Paraguai transforma-se numa metáfora da danação dos que arrastam os grilhões da culpa — e daqueles que uma sociedade excludente (leia-se racista) condenou a um estatuto de corpo perpetuamente vulnerável. É o fantasma do determinismo que passa de espectro zombeteiro a demónio… de sina a calvário.
Estamos em 1870, quando a América do Sul se encontrava num conflito com fedor a pólvora e coágulos secos. Seguimos os passos de três soldados desertores: Gustavo (Jorge Guerreiro, numa interpretação reflexiva e densa); Anselmo (o ás do riso George Sauma, aqui num registo de agonia); e Gabriel (Pierri Baitelli, estupendo em cena, com o seu ar ofegante). Cada um deles luta para sobreviver, à sua maneira, até que o trio encontra uma casa isolada na fronteira, habitada apenas por uma jovem (Jade Mascarenhas, num rico exercício de ambiguidade) e um fazendeiro com ares de Quasimodo, que Luiz Carlos Persy — um mestre da dobragem brasileira — compõe como um sintagma vivo da putrefacção.
Lembram-se de Mumm-Ra, o vilão da série animada ThunderCats? O seu bordão, “Antigos espíritos do Mal… transformem esta forma decadente num Ser Eterno”, encaixa-se na perfeição a este velho estancieiro. Diante da crueza dos seus actos, não demora até que o potencial oásis se torne um ascensor para o cadafalso.
Talvez, diante desta descrição decalcada dos minutos iniciais do espectáculo quase sartriano (“o Inferno são os outros!”) de Ian SBF, Brecht possa dar lugar a Dario Argento. Durante a pandemia, em plena Europa confinada, o ourives do Giallo — o terror à italiana —, aclamado por jóias como Suspiria (1977), definiu o horror moderno assim, numa conversa aqui com o C7nema:
“Os grandes cineastas italianos das gerações dos anos 1940 e 1950 deram ao mundo parábolas políticas. Parábolas que nasceram do horror da II Guerra e das barrigas que roncavam famintas diante da tragédia fascista que destruiu o meu país. O motor neorrealista é a fome. O motor do terror são os sonhos. Há algo de Freud e Jung nas tramas, pois ambos mudaram a nossa representação do mundo a partir do inconsciente. Os assassinos são a metade sombria do nosso inconsciente. Os monstros são o reflexo dos sonhos de criança.”
Conhecido por um histórico de comédia, apesar de cada risada do seu Entre Abelhas (2015) ser metafísica pura e aplicada, SBF junta assassinos e monstros em seu A Própria Carne, ave rara na produção fantástica latino-americano por preferir ser explícita do que sugestiva, sem perder o tom político. A sua maneira de escancarar a postura racista institucional de um país colonizado caminha por um rastro de pólvora. A escolha de Vinícius Brum, diretor de fotografia de títulos como Desapega! (2023), para arquitetar um desenho de luz para o mundo grotesco de Ian foi “O” achado da longa-metragem, não apenas por pavimentar sua estrada profissional para um novo patamar artístico, mas pela aposta radical no dionisíaco, numa linha quase B. A iluminação parece muito a da arte gráfica de Richard Corben nas BDs, sobretudo em Creepy.
O outro achado dessa coprodução da Neebla e da Nonsense Creations, de Deive Pazos e Alexandre Ottoni, com a grife Jovem Nerd, foi permitir… enfim… que o cinema brasileiro visse o ferramental cénico por trás de uma das vozes mais conhecidas dos seus filmes dobrados. Ninguém é selecionado para dobrar D. Vito Corleone (Marlon Brando) na versão brasileira de Godfather (1972) se não tiver um talento de titã, como Persy (uma mistura de Paulo César Pereio com Fernando Eiras, duas estrelas sui generis do Brasil) tem.
Ao gravar uma curta com a realizadora Monique Lima, há uns sete anos, enquanto recitava vilanias de Shakespeare, Persy olhou a câmera e disse: “Você gosta da minha maldade”. Só quem vir A Própria Carne saberá a extensão de sua diabrura ao compor um colosso cujo papel é impedir que os domínios de Satã transbordem até nós. Esse transbordamento já está ao nosso redor. Daí inspirar um filme que ferve quente, numa montagem de panela de pressão.

















