Pelas mãos de Stéphane Brizé, a França encontra o seu concorrente mais forte na 83.ª edição do Festival de Veneza. Un bon petit Soldat é um retrato fiel e irónico do mundo corporativo. Brizé é certeiro na sua junção de comédia e drama, arrancando gargalhadas sinceras ao espectador ao mesmo tempo que o leva a refletir. Iniciar o filme com What a Wonderful World, na versão de Joey Ramone, não é apenas uma escolha de gosto pessoal; trata-se da criação de um tom eletrizante, que navega pela hipocrisia do mundo corporativo.
Carla, a protagonista, é um soldado. Luta contra as próprias convicções, acatando as ordens do chefe, interpretado com muita acidez pelo excecional Vincent Lindon. Carla é a diretora de RH de uma importante empresa de seguros. Na reunião sobre o vídeo de recrutamento de novos funcionários, que vende uma imagem empática e saudável da companhia, todos se comportam como robôs, pressionados pelos olhares do patrão. Aquelas pessoas foram transformadas em seres desprovidos de sentido crítico e opinião própria. Todos sabem que a imagem vendida no vídeo não corresponde à realidade, mas ninguém diz nada — essa ironia, somada às reações de Lindon, é fantasticamente trabalhada por Brizé.
Além de trabalhar nesta campanha, que também envolve jogos e atividades alegres entre os funcionários, Carla vê-se numa encruzilhada ética. Uma funcionária foi humilhada por outra, o que fere os princípios básicos de qualquer ambiente de trabalho. A protagonista sabe que o certo é punir a agressora; no entanto, esta apresenta resultados muito superiores aos da outra.
A pressão e o esgotamento sentidos por Carla também afetam a sua relação familiar. O filho não tem obtido boas notas na escola. Numa cena que sintetiza o tom da narrativa, a protagonista tenta ensinar-lhe geometria. A cada resposta errada do rapaz, Carla enfurece-se, chegando a um nível preocupante de irritação — o que começa como uma “piada” acaba por ser o retrato da exaustão de uma mulher que foi devorada pelo seu meio de trabalho. Para piorar, o filho, que, devido às exigências excessivas na empresa da protagonista, tem passado as semanas com o pai, parece ter-se convencido de que já não quer viver com a mãe.
Brizé aposta numa construção formal agitada, dominada por jump cuts, zooms e planos fechados. Assim, o cineasta alcança um tom que fica entre a opressão quotidiana e a comédia de filmes como BlackBerry, de Matt Johnson. Brizé nunca tira os olhos da protagonista, acompanhando os seus passos no escritório, nas conversas com o filho e no metro. Alba Rohrwacher talvez seja a principal candidata a vencer a Coppa Volpi de Melhor Atriz. Interpreta Carla como um vulcão que quer entrar em erupção, mas não consegue. Os momentos mais intensos ganham força justamente pela contenção que Carla precisa de manter na maior parte do tempo.

Homenageada com o Leão de Ouro honorário, Ellen Burstyn protagoniza o novo filme de Kornél Mundruczó. Place To Be é, formalmente, muito mais simples do que os outros projetos do cineasta húngaro, o que é uma demonstração de maturidade. Mundruczó, em vez de se “exibir”, foca a narrativa nos seus atores e na relação entre as personagens centrais.
Brooke é uma mulher idosa. Os filhos, num misto de preocupação e insensibilidade, querem colocá-la num lar de idosos. Brooke é contra essa ideia e, após receber a inesperada visita de um pombo em casa, inicia uma viagem para o devolver ao dono. No caminho, a protagonista conhece Nelson, um agente imobiliário insatisfeito com a sua vida. A estrutura de road movie, na qual se desenvolve uma amizade improvável, não é novidade. Os clichés existem, mas, quando bem temperados por um cineasta que entende a força da história que está a contar e, principalmente, por uma dupla de intérpretes em estado de graça, tendem a ser bem aceites.
Taika Waititi liberta-se dos seus maneirismos habituais, interpretando Nelson com um carisma convidativo. Aos poucos, a personagem admite para si e para Brooke que as coisas não estão bem e que precisa de mudar — essa humildade é adquirida no convívio com a protagonista, uma mulher que deseja viver os seus últimos anos da forma mais plena e livre possível. Aos 93 anos, Burstyn impressiona por continuar a ser aquela atriz excecional que conquistou uma legião de fãs há décadas. As limitações físicas estão lá, mas Burstyn convence o espectador de que Brooke é capaz de atravessar esse período derradeiro como quiser. Vê a vida de forma graciosa.
Com uma seleção musical notável, planos de pombos a voar, de um simbolismo algo óbvio, e a química surpreendente entre Burstyn e Waititi, Place To Be é um belo e simpático filme.
O Festival de Veneza prossegue até ao dia 12 de setembro.

