Vinte e cinco anos depois de ter começado a correr mundo, Janela da Alma volta a abrir-se no Rio de Janeiro. O ensaio documental realizado a quatro mãos pelo carioca João Jardim e pelo paraibano Walter Carvalho regressa numa versão remasterizada, numa sessão comemorativa marcada para segunda-feira, 5 de outubro, às 21h30, no Centro Cultural FGV, integrada no Festival do Rio. A celebração acontece numa edição em que a maratona cinéfila carioca dedica também um programa aos primeiros curtas e médias-metragens de Wim Wenders, justamente uma das vozes convocadas pelo filme brasileiro para pensar aquilo que existe entre olhar, ver e compreender.
Restaurar, remasterizar e preservar Janela da Alma significa mais do que reconhecer um filme de sucesso sobre a arte de ver e os artifícios do olhar. Significa democratizar o acesso a uma obra que se tornou um marco na forma de narrar através da câmara e das ferramentas da montagem. Mantê-la viva e acessível é também um exercício de inclusão: permite que novas gerações entrem em contacto com uma reflexão sobre o papel humanista da arte que, um quarto de século depois, parece ter adquirido ainda maior urgência.
Depois da estreia na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2001, o filme percorreu festivais como o IDFA, em Amesterdão, e Karlovy Vary, além de ter conquistado o Golden Centaur no Message to Man, em São Petersburgo. Transformou-se ainda num inesperado fenómeno comercial para os padrões do documentário brasileiro do início do século. Ficou 48 semanas em exibição e chegou a cerca de 140 mil espectadores, num mercado dominado pelas grandes produções de Hollywood. Mais tarde, encontrou uma segunda vida em escolas, universidades e outros espaços de formação, transformando a sua longevidade numa ferramenta pedagógica.
Apresentado em 2001 na Mostra de São Paulo, Janela da Alma nasceu de uma inquietação íntima de Jardim, míope desde a infância, acerca da relação entre ver e ser visto. A investigação rapidamente ultrapassou a experiência individual. Ao lado de Carvalho, o realizador reuniu um conjunto extraordinário de pensadores, artistas e criadores: José Saramago, Agnès Varda, Hermeto Pascoal, o fotógrafo cego Evgen Bavcar, Oliver Sacks e o próprio Wenders, entre outros. O que os une não é uma resposta, mas uma pergunta: que distância existe entre aquilo que os olhos captam e aquilo que a consciência consegue compreender?
É precisamente nessa distância que o filme encontra a sua matéria cinematográfica. “Na distância entre aquilo que se vê e aquilo que se deduz reside uma certa poesia que a gente chama de cinema”, explicou Carvalho. Jardim, por seu lado, descrevia o projeto como uma experiência que partira da sua miopia para desembocar num ensaio sobre palavra e pensamento, construído a partir de pessoas capazes de produzir sucessivas camadas de sentido.
Essa arquitetura afastava Janela da Alma dos códigos informativos tradicionalmente associados ao documentário. Os factos permaneciam, mas Jardim e Carvalho interessavam-se igualmente pelas pausas, pelos silêncios, pelos cortes secos, pelas contemplações, pelas peles e pelos suores. A palavra não esmagava a imagem; ganhava ritmo através dela. O filme aproximava o documentário da tradição experimental e, simultaneamente, de uma herança literária ligada ao fluxo de consciência, deixando as falas avançarem sem que uma estrutura didática as domesticasse.
Wenders percebeu rapidamente essa singularidade. Entrevistado no filme, o realizador de Paris, Texas, Palma de Ouro em Cannes em 1984, destacou a capacidade dos brasileiros para “usar o silêncio” e defendeu que a fronteira sensorial entre documentário e ficção já tinha sido profundamente esbatida. Para ele, a ficção adulta tornava-se mais rica quando permitia que a realidade a surpreendesse e a “atropelasse”. A presença de Wenders ganha agora uma curiosa circularidade: enquanto Janela da Alma festeja 25 anos no Festival do Rio, alguns dos seus primeiros trabalhos são igualmente revisitados na programação do festival.
O filme surgiu, afinal, num momento de profunda reconfiguração do audiovisual. Na passagem dos anos 1990 para o novo milénio, a televisão era invadida pelos reality shows, a Internet começava a alterar os códigos de circulação das imagens e obras como The Truman Show, de Peter Weir, interrogavam a transformação da intimidade em espetáculo. Ao mesmo tempo, filmes como Amores Perros, de Alejandro González Iñárritu, e The Circle, de Jafar Panahi, procuravam novas formas de contaminação da ficção pelo real.
Foi nesse terreno que o documentário começou também a abandonar o espaço mais restrito dos canais educativos e a disputar novamente espectadores nas salas de cinema. Janela da Alma tornou-se um dos exemplos brasileiros mais eloquentes desse movimento. Anos depois, seria colocado no 20.º lugar da lista dos melhores documentários brasileiros elaborada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).
Entre as imagens mais poderosas está a presença de Evgen Bavcar. Cego, o fotógrafo toca os rostos dos modelos para cartografar pelo tacto a paisagem das suas aparências antes de construir a fotografia. É uma espécie de síntese filosófica do próprio filme: ultrapassar a superfície para procurar aquilo que existe para além do imediatamente percetível.
Um quarto de século depois, essa procura continua aberta. A obra posterior de Jardim e Carvalho atravessou o documentário e a ficção, mas aquela janela inaugural nunca chegou verdadeiramente a fechar-se. Gerações aprenderam a olhar através dela. A sessão de segunda-feira não celebra apenas a sobrevivência de um filme: reafirma que preservar Janela da Alma significa preservar uma geografia de afetos, um pedaço do Brasil e uma determinada maneira de acreditar que as imagens ainda podem ensinar-nos a ver.
A 28.ª edição do Festival do Rio decorre entre 1 e 11 de outubro.

