Pontos de cultura (e saudade) no adeus de Silvio Tendler

O último filme do “papa do documentário histórico brasileiro” chega ao Festival do Rio na próxima terça-feira. Pontos de Partida, obra que Silvio Tendler (1950-2025) deixou por concluir quando morreu, a 5 de setembro do ano passado, integra a secção Première Brasil: O Estado das Coisas e funciona como despedida cinematográfica de um realizador que fez da memória uma forma de intervenção política. Antes da passagem pelo Rio, o filme teve uma sessão especial no Festival de Brasília, em setembro.

Com 101 minutos, Pontos de Partida regressa a 2004, quando a política cultural brasileira deu origem ao programa Cultura Viva e a uma rede que viria a alcançar 3500 Pontos de Cultura em todo o país. Tendler concentra sobretudo o olhar nas periferias de São Paulo, recuperando uma experiência concebida para descentralizar o acesso à produção cultural e dar visibilidade a manifestações habitualmente afastadas dos grandes centros institucionais.

O projeto ocupava Tendler nos últimos meses de vida. Na derradeira conversa que teve com o C7nema.net, o realizador, historiador e professor contou que deixava em gestação precisamente um filme sobre os Pontos de Cultura. Após a sua morte, o produtor Cláudio Kahns assumiu a tarefa de concluir a obra. Kahns assina também o argumento, ao lado de Tendler e Renata Villas Boas.

Silvio Tendler

É um fecho particularmente coerente para uma filmografia construída em torno da disputa pela memória brasileira. Autor de Os Anos JK – Uma Trajetória Política (1980), O Mundo Mágico dos Trapalhões (1981), Jango (1984), Tancredo: A Travessia (2011) e Brizola – Anotações para uma História (2024), Tendler conseguiu algo raro no documentário brasileiro: transformar a História em espetáculo popular sem lhe retirar a dimensão crítica. Jango ultrapassou a barreira do milhão de espectadores, enquanto O Mundo Mágico dos Trapalhões chegou a quase 1,9 milhões de entradas vendidas.

Em Pontos de Partida, a fotografia é de Lúcio Kodato, a montagem de Célia Freitas, a direção de arte de Rico Lins e a música de Arrigo Barnabé. Miriam Biderman assina a edição e mistura de som, enquanto Ricardo Reis responde pelo desenho sonoro.

Ana Rosa Tendler, filha do cineasta, ocupa-se hoje da preservação do seu legado, procurando garantir a digitalização e salvaguarda de uma obra extensa, incluindo filmes mais antigos que exigem intervenção de conservação e continuam a ser procurados por escolas, universidades e outras instituições de ensino.

Mais do que um título póstumo, Pontos de Partida deixa uma espécie de última declaração de princípios de um realizador que acreditava na cultura como instrumento de cidadania. Tendler costumava dizer aos seus alunos que “a verdade vai aflorar com outras tecnologias”. O seu cinema passou décadas à procura dela entre arquivos, testemunhos e cicatrizes políticas. Pontos de Partida sugere que, até ao fim, continuou a procurá-la.

Pontos de Partida será exibido na próxima terça-feira no Festival do Rio.

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