Frequentemente, ao ponto de se ter tornado um clichê e uma âncora visual facilitadora para o espectador distinguir dois tempos numa série ou filme, muitos  realizadores (em articulação com a direção de fotografia e montagem) recorrem ao uso do preto e branco para nos levar ao passado de uma história. Porém, no caso de “Como si la tierra se las hubiera tragado”, curta-metragem mexicana premiada em Sundance e agora no Curtas Vila do Conde, esta técnica de “pintar” os flashbacks a preto e branco é invertida, estando essa escala de cinzentos nos eventos do presente, contrastando com as mais variadas cores sob um sépia permanente que pintam e dão vida à localidade mexicana que visitamos no passado, local esse onde a protagonista, Olivia, regressa depois de anos fora. 

Nesta produção francesa realizada pela mexicana Natalia León, a verdade é que o mundo de Olivia obscureceu e perdeu cor quando a inocência infantil em relação à violência que a cercava se perdeu, particularmente depois do desaparecimento de uma jovem que vendia gelados. Um amontoado de cartazes com outras mulheres desaparecidas despertam a jovem para uma dura realidade e para a violência  sistémica no país contra as mulheres, algo do qual ela vivia alheada (e protegida) enquanto criança.

É o reencontro com as memórias traumáticas da sua infância não tão distante, e o descobrir dos horrores conectados com o tráfico sexual e o feminicídio, que esta curta-metragem de 14 minutos explora eficazmente. Nos seus créditos finais, descobrimos que no México desaparecem (ou morrem) cerca de 10 mulheres por dia, algo que é refletido pela cineasta com sensibilidade, mas sempre de forma honesta, nunce se preferindo explorar graficamente os cadáveres no feminino, ainda que se sugira com uma inevitável violência isso mesmo.

Com personagens desenhadas em 2D onde se recria a atmosfera alegre de Olivia em criança, alheia à violência ao seu redor, bem como se rasga o ecrã com tons de cinza que evocam uma atmosfera melancólica e dolorosa, “Como si la tierra se las hubiera tragado” é um objeto de inegável força e destreza que não deixa ninguém incólume.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
como-si-la-tierra-se-las-hubiera-tragado-a-perda-da-inocenciaÉ o reencontro com as memórias traumáticas da sua infância não tão distante, e o descobrir dos horrores conectados com o tráfico sexual e o feminicídio, que esta curta-metragem de 14 minutos explora eficazmente