Beleza é sinónimo de poder e poder é sinónimo de dinheiro, independência e relevância, assim o pensa a protagonista de “Diamant Brut”, Liane (Malou Khebizi numa atuação estonteante), de dezanove anos, que num contexto de arquétipo e fascínio pelo universo da Reality television, partindo dos seus pressupostos hiperfeminizados e hipersexualizados, do entretenimento agarrado à imagem corporal e capacidade de implosão, define a sua persona numa rota para a fama.

Com uma relação problemática com a mãe, que nos leva até “Fish Tank” de Andrea Arnold, e uma “carreira” de “influencer” a despoletar (que nos leva a “Sweat” de Magnus Von Horn), Liane já adicionou implantes mamários e agora pensa em fazer o mesmo ao rabo, especialmente quando após um casting bem sucedido tem tudo para ser chamada para um reality show televisivo intitulado “Miracle Island“. 

Embora este primeiro filme da francesa Agathe Riedinger, que surpreendeu ao ser incluída na competição à Palma de Ouro do Festival de Cannes, se desoriente no seu percurso, um pouco como a personagem principal na ciranda da obsessão pela fama, existe nele a mesma energia provocante e contaminação reflexiva que Ruben Ostlund tinha, por exemplo, em “Involuntary”, enquanto nos mostra mais uma mulher cercada pelas pressões invisíveis da sociedade, de certa maneira, ainda que noutro registo, como a jovem protagonista de “How To Have Sex”, que curiosamente (ou não) passou por Cannes no ano passado.

No mais, destaca-se a cinematografia, assinada por Noé Bach, saturada e tão artificial como as pestanas e unhas de Liana, e a escolha de um formato de imagem de TV (4:3) para trazer até nós uma peça de realismo twerk nos tempos em que Kim Kardashian e a exposição Tik Tok são o topo faraónico de inspiração adolescente. 

E é curioso que num festival em que Quentin Dupieux brincou na sua abertura com a noção de realidade e ficção, mesclando as duas numa abordagem metafilmica, Liana tenha uma perspectiva da realidade de total ficção. E no meio dessa confusão de criação de uma persona triunfante temos uma figura hipersualizada na forma, mas emocionalmente (e efetivamente) virgem, revelando uma dessexualização contrastante especialmente na presença de Dino (Idir Azougli), um “caso social” como ela define.

Por tudo isto, e apesar de não ter a consistência para levar a água ao seu moinho, especialmente na crítica social a uma “realidade” ensaiada, “Diamant Brut” mostra certamente uma realizadora a seguir nos próximos anos. É que a forma como estudou e desenvolveu o estudo da personagem de Liane levou Cannes a discutir o filme já fora da sala.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
diamant-brut-agathe-riedinger-e-o-real-da-reality-televisionApesar de não ter a consistência para levar a água ao seu moinho, especialmente na crítica social a uma “realidade” ensaiada, “Diamant Brut” mostra certamente uma realizadora a seguir