Exuberante na sua direção de arte, apoiado num vilão aterrorizante (Atticus Noble, vivido por Ed Skrein), “Rebel Moon” chegou à Netflix no Natal de 2023 com a promessa de se consagrar como fenómeno do streaming, a reproduzir uma estrutura de space opera típica de “Star Wars”. O termo em itálico ao lado é usado para se referir a épicos de capa & espada de tons futuristas e distópicos, ambientados em planetas que fogem do sistema solar, onde uma estrutura narrativa de golpes de estado e células de resistência levam sociológica à luta do Bem contra o Mal. Está tudo ali: todas as fórmulas que George Lucas tomou emprestadas das bandas desenhadas (“Buck Rogers”) e das séries dos anos 1930 e 40 (“Flash Gordon”). Noble é um Darth Vader dos bons, cheio de estilo, bem justificado pela sanha militarista em evoluir na sua patente na Marinha Intergaláctica. O que falta ao projeto de Snyder, inaugurado por “A Menina do Fogo”, é uma linha dramatúrgica que justifique as decisões das demais personagens e ampare as escolhas de enquadramento de Zachary Edward Snyder, um cineasta autoral que se posicionou bem nas plataformas digitais com “Army of the Dead” (2021).
Lá, havia uma tradição cinéfila na base (a evocação aos filmes de zombies) e um guião sólido. Já em “Rebel Moon”, solidez é tudo o que não se vê, deixando no ar um aroma incômodo de decalque de todos os tiques dos filmes sci-fi de aventura. Para além disso, a alusão onipresente a “Os Sete Samurais” (1954) não soa como um tributo, mas, sim, como cópia descarada.

Na trama, há ecos de Kurosawa por todos os cantos. Tudo começa quando a guerreira Kora (Sofia Boutella), dona de um passado misterioso, pousa numa colónia pacífica de agricultores, Veldt. Lá, vemos um prólogo encantador, de montagem serena, na qual Snyder dimensiona uma ideia de paz contagiante. Cada personagem tem espaço para brilhar, com destaque para o agricultor Gunnar (Michiel Huisman), que se encanta por Kora. Mas o perfil pacifista da jovem precisa ser descartado quando ela se transforma na única esperança de sobrevivência de seus anfitriões. A mudança se impõe pelos desígnios do tirânico regente da frota estelar chamada Mundo-Mãe, Balisarius (Fra Fee), representado pelo seu cruel emissário, o já citado Almirante Noble (Skrein, em impecável atuação). Esse império das trevas descobre que os agricultores venderam as suas safras para os irmãos Bloodaxe (Cleopatra Coleman e Ray Fisher), líderes de um grupo de insurgentes. A chegada de Noble ao local é indisfarçavelmente igual à entrada do nazi Hans Landa (Christoph Waltz) aos campos do Sr. Lapadite (Denis Ménochet) em “Bastardos Inglórios” (2009). Até a sua forma de eliminaralvos, de maneira fria, é parecida.
A ameaça do vilão leva Kora a buscar guardiões para ajudar os seus novos amigos. É a mesma dinâmica do filme de culto de Kurosawa e de “Sete Homens e um Destino” (1960), de John Sturges. Aliás, há o mesmo mote em “The Expendables” (2010), de Sylvester Stallone. É a mesma estrutura de arrebanhar alianças, só que à moda Snyder, com niilismo reinante.

Saído de videoclipes de Rod Stewart, Morrissey e My Chemical Romance, Snyder criou uma série de marcas pessoais na sua realização, não apenas no ritmo acelerado dos seu planos e na sua aposta em tons ocre (vermelhos e marrons) em situações mais passionais e trágicas. Mas a marca mais pessoal da sua “escrita fílmica” está no seu olhar niilista. Desde o seu filme de culto sobre mortos-vivos, “Dawn of the Dead” (2004), fez-se notar como uma espécie de profeta da lógica do niilismo em Hollywood. Os seus filmes refutam finais felizes e contestam a soberania da Bondade nas narrativas, pois cada the end filmado por si carrega na trama uma centelha de desesperança, uma perceção de que herói é aquele que precisa ser imolado, o Cordeiro de Deus a sangrar pelo pecado do Homem e pela vaidade dos Titãs.
Foi assim em “300” (2007), com cabeças a rolarem pelas Termópilas; era esse o destino de Roschach em “Watchmen” (2009); deu-se o mesmo com as corujas falantes de “A Lenda dos Guardiões” (2010); e com as internadas no manicómio de “Sucker Punch” (2011). Nem Kal-El livrou-se de ter de sujar as mãos em “Homem de Aço” (2013). Lá, longe da égide paladina do “Superman” de Richard Donner, o bom rapaz máximo das BDs foi forçado a matar para salvar-nos da fúria do seu algoz, Zod. Não por acaso, no meio de “Batman Vs. Superman” (2016), Kal-El profetiza: “Nem tudo permanece bom!”. Tem razão: na América sobre a qual Snyder fala, as virtudes do altruísmo viraram tão irreais e impalpáveis como os comics. Não por acaso, ele cita, ali, frontalmente, as histórias de John Byrne, o artista gráfico canadiano que desconstruiu o Super-Homem nos anos 1980, humanizando-o na esfera do desejo e da fraqueza moral: os mitos existem para serem quebrados e mais tarde refeitos como lendas. Por este motivo, o temeroso Almirante Noble não tem verve de samurai, como Lorde Vader, um ronin renegado pela Força dos Jedi e abraçado pelos Sith. Noble é a tradução de uma América de ideologias fraturadas.
Apesar de suas imperfeições, “Rebel Moon” permite-nos ver o esboço da civilização que nos tornamos e nos distanciar desse rascunho. É hora da arte-final. Pena que o filme tão esperado de Snyder careça de acabamento.
Há bons personagens aos montes, como se vê nas andanças estelares de Kora. Encarregados de encontrar pessoas dispostas a arriscar a vida em defesa do povo de Veldt, Kora e Gunnar vão de mundo em mundo à cata dos irmãos Bloodaxe, ajudados pelo piloto e assassino de aluguel Kai (Charlie Hunnam), espécie de Han Solo. Juntam-se a eles o General Titus (Djimon Hounsou), a espadachim Nêmesis (Bae Doona), o prisioneiro com um passado de abusos Tarak (Staz Nair) e Milius (E. Duffy), integrante da resistência. No retorno a Veldt, o robô Jimmy (interpretado por sir Anthony Hopkins, na versão em inglês, num trabalho vocal), desperta com um novo propósito. Ninguém entende exatamente qual. Mas… parece que ele é a chave
Isso deve ser explicado em “Rebel Moon – Parte 2: A Marcadora de Cicatrizes”, que estreia na Netflix no dia 19 de abril de 2024. O problema é saber se essa “Parte dois” vai resolver falhas graves na estrutura dramatúrgica do projeto Uma delas está na figura de Titus. Fala-se todo o tempo que ele é um estrategista lendário, um senhor da guerra impávido. Porém, apesar do carisma de Hounsou, em momento algum é justificado todo o prestígio que a personagem tem. Um diálogo resolveria isso. Porém, não parece haver preocupação do guião nisso. Há que se aceitar a potência de Titus e ponto. É diferente do que se vê com o personagem de Ray Fisher, Bloodaxe, cujos sentimentos estão bem expressos, assim como os motivos das suas escolhas. Kora é o mesmo caso, garantindo à sua estrela, Sofia Boutella, sequência que se agarram às retinas.
No quesito adrenalina, Snyder consegue nos dar em cerca de duas horas mais do que a trilogia de J. J. Abrams (2015-2019) à frente de “Star Wars” conseguiu oferecer. Há lutas de coreografia exuberante e perseguições enervantes. O chato é não entender o que deflagra cada combate.





















