Com a abertura entregue à nova aventura dos mínimos, Minions & Monsters, de Pierre Coffin, arranca com o Festival de Cinema de Annecy, o mais importante dentro do circuito mundial de animação.
De 21 e 27 de junho, o festival volta a ocupar a cidade francesa, enquanto o Mifa, o seu mercado profissional, decorre entre 23 e 26 de junho. Durante uma semana, Annecy junta assim a sua poderosa competição, que atribuiu o Cristal à sua melhor longa-metragem, à exibição de filmes clássicos, não esquecendo masterclasses, que este ano vão dos dos Brothers Quay (Stephen e Timothy Quay) a Mike Judge. Sessões especiais com filmes da Pixar, Disney, Netflix, Warner, Aardman e Cartoon Salon enriquecem ainda o certame.
Na competição oficial de longas-metragens encontramos 11 filmes, com destaque imediato para o regresso de Alberto Vázquez, realizador de Unicorn Wars, que traz Decorado, uma coprodução de Espanha com a portuguesa Sardinha em Lata em jeito de fábula animal – com um rato no centro da história – para falar de uma cidade controlada por uma corporação.
Chegado de Cannes, e já com o selo da Netflix, está também a concurso In Waves, de Phuong Mai Nguyen, que adapta a novela gráfica de A.J. Dungo e cruza romance adolescente, surf, doença e luto.


A competição passa também por outro chegado da Croisette, Lucy Lost, de Olivier Clert, uma aventura familiar situada em tempos da Primeira Grande Guerra, onde observamos como as comunidades assustadas transformam as diferenças em ameaça. E temos ainda: Nobody, de Yu Shui, produção chinesa inspirada no universo de Journey to the West, que segue um pequeno demónio-porco que sonha com algo maior do que o lugar secundário a que foi confinado; Tana, que une música ao regresso às raízes na Mongólia Interior; The Sunrise File, um thriller histórico sobre a caça a criminosos nazis; The Violinist, um drama de guerra onde Fei e Kai, dois amigos de infância que sonham tornar-se violinistas de nível mundial, separam-se quando a Segunda Guerra Mundial eclode; Tangles, que adapta a memória gráfica de Sarah Leavitt, centrada na experiência da autora com a doença de Alzheimer da mãe; Viva Carmen!, releitura do mito de Carmen por Sébastien Laudenbach; We Are Aliens, drama que também passou por Cannes e que aborda as marcas da infância na idade adulta a partir da história de dois jovens; e Iron Boy, de Louis Clichy, que acompanha um rapaz criado numa quinta francesa que é pressionado a corresponder ao modelo de força e trabalho imposto pelo pai.



Não é só na corrida ao Cristal que Annecy é famoso. Lado a lado com ela, a secção Contrechamp volta a funcionar como espaço para outros caminhos narrativos e visuais. A secção abre com Welcome to Dolly’s House, de Taiwan, sobre uma YouTuber em ascensão cuja procura pela fama e amor acaba em pesadelo. A seleção inclui ainda 58th, um documentário animado filipino sobre o massacre de Maguindanao e a luta pelo reconhecimento de uma vítima desaparecida; A New Dawn, coprodução Japão-França sobre um rapaz que vive numa fábrica abandonada e quer lançar o último fogo-de-artifício deixado pelo pai; e Blaise, uma sátira francesa que se estreou na ACID sobre uma família obcecada com a sua reputação social.
Também por lá encontramos Muyi, la légende du village des femmes, passado numa aldeia chinesa proibida aos homens; Peleliu – Guernica of Paradise, um drama japonês sobre soldados isolados no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial; Son of a Bitch / O filho da puta, filme brasileiro sobre um jovem marcado por ser filho da dona de um bordel; a estranha viagem pelo limbo em Spacetime; a fantasia japonesa The Obsessed sobre um homem que passa de obsessão em obsessão; The Orbit of Minor Satellites, que mistura desenho em papel, live action, marionetas e rotoscopia para seguir a relação entre psiquiatra e paciente; e Winnipeg, Seeds of Hope, uma animação 2D (por computador) em torno de refugiados espanhóis que embarcam no navio fretado por Pablo Neruda rumo ao Chile.



Fora da competição principal encontramos pepitas prontas a lapidar, com estúdios como o Cartoon Saloon, de WolfWalkers, The Breadwinner e The Song of the Sea, a marcarem presença. Desta vez o estúdio irlandês leva ao certame Julián, de Louise Bagnall, a partir do livro ilustrado Julián Is a Mermaid, de Jessica Love. O filme acompanha uma criança de origem dominicana que passa o verão em Brooklyn com a avó e descobre a sua atração pelo universo das sereias.
Também encontramos Brave Cat, do chileno Gabriel Osorio, vencedor do Óscar pela curta-metragem Bear Story, agora numa longa-metragem sobre uma gata doméstica que se vê obrigada a enfrentar o mundo exterior. Encontramos ainda Born in the Jungle, de Edmunds Jansons, situado na Venezuela na década de 1950, e The Last Whale Singer, onde uma jovem baleia é obrigada a assumir a herança musical.
Entre os títulos mais curiosos está ainda The Keeper of the Camphor Tree, adaptação animada do romance de Keigo Higashino, e Chimney Town: Frozen in Time, de Yusuke Hirota, que já tinha passado na Berlinale.


Curtas, televisão, trabalhos imersivos e tudo mais
Como habitualmente, a competição de curtas-metragens é uma das zonas mais densas do festival, enquanto secções como Perspectives, Off-Limits, Young Audiences, Midnight Shorts e WTF abrem espaço a trabalhos muitas vezes experimentais, filmes para um público mais jovem, mas também o terror, a ficção científica e propostas ainda mais complexas de classificar.
Na competição oficial de curtas surgem A Filha da Água, de Sandra Desmazières, e Virgem Fandango, de Marcy Page, enquanto na Pespectives aparece Porque Hoje É Sábado, de Alice Eça Guimarães. Temos ainda I’d Rather Be A Concorde, de Javier Fabregas, na WTF.
A programação inclui também o espaço TV Films e Commissioned Films, duas categorias essenciais para olhar para a animação fora da sala tradicional, seja via séries, telefilmes e programas especiais para televisão, seja nos filmes encomendados, onde encontramos videoclipes, anúncios publicitários e peças institucionais. O Spot Monstra 2025, de Vasco Casula, criada para o festival MONSTRA, encontra-se aqui presente.
No espaço destinado para as escolas de animação e novos autores (Graduation Films), Portugal marca presença com A Body without a Horse?, de Lara Fuke, coproduzido no contexto da RE:ANIMA.


Em qualquer festival contemporâneo que olhe para as novas tecnologias, seja de animação ou em imagem real, não podiam faltar os trabalhos imersivos (Immersive Works), onde se encontra em competição Lúcido, de Vier. Há ainda videojogos e, naturalmente, a componente industrial do evento, materializada na Mifa. Aí os produtores, estúdios, escolas, exibidores, distribuidores, plataformas e criadores vão apresentar novos projetos, participar em conversas e procurar novos caminhos para os seus filmes, estando programadas apresentações por parte da Pixar, Walt Disney, Netflix, Warner Bros., DC Studios, Aardman e Laika.
Nos Mifa Pitches, Portugal surge com dois projetos: Prado, de Alexandre Sousa, e Killin’ It, de Balázs Turai. A representação portuguesa no mercado completa-se com cinco projetos no Partners Pitches – Portuguese Spotlight Pitch: as curtas 28 Grams Per Hour, de Débora Mendes, Them, de Diogo Costa, e The Homeless Wolf, de Ricardo Adrêgo; e as longas Amazofuturismo, de Isabella Papa e Baboo Matsusaki, e Devil’s Little Couple, de Jerónimo Rocha e João Miguel Real.
A dimensão histórica aparece igualmente em Annecy através da exibição de clássicos da animação (na secção Annecy Classics), onde temos títulos como Grave of the Fireflies, Ninja Scroll e Perfect Blue em versões restauradas.
Recorde-se que em 2025, a animação Arco, sobre uma amizade inesperada e o destino de um mundo afetado pelas alterações climáticas, ganhou o Cristal de melhor filme no Festival de Cinema de Annecy.

