Mesmo quando se tenta afastar da mera peça nostálgica apenas para adeptos de futebol, o endeusamento deste desporto e das suas estrelas fala sempre mais alto do que a tentativa de ligar um jogo — Inglaterra-Argentina, nos quartos de final do Mundial de 1986 — à tensa história colonial entre os dois países. É certo que este documentário, lançado quase 40 anos depois do Mundial do México, país que volta este ano a receber a competição, tem vários momentos de interesse histórico e momentos riquíssimos de fait divers, sobretudo quando entra na esfera das manias e ideias de Carlos Bilardo, o selecionador argentino que merecia um documentário só sobre ele. Porém, a dupla Juan Cabral e Santiago Franco nunca encontra um distanciamento claro entre a peça jornalística e histórica de luxo que pretende ser e a paixão quase cega pelo futebol, desporto que não nasceu no Olimpo, mas em Inglaterra, antes de se espalhar por todos os cantos do planeta, incluindo a Argentina, que antes de Messi pertencia a Maradona.

Filme de abertura da secção Cannes Première, The Match parte de um jogo que já nasceu maior do que o futebol, mas, em vez de começar na “Mão de Deus”, começa na “Mão de Byron”: o lorde que chega às Malvinas e inicia a primeira invasão inglesa. Os britânicos chamam-lhes Falkland. A partir daí, e percorrendo apressadamente anos de quezílias e rivalidades que naturalmente também atravessaram o futebol, de 1966 a 1986, a dupla tenta fazer-nos compreender como aqueles noventa minutos no Estádio Azteca condensam décadas de tensão entre os dois países, ainda mais inflamadas por o jogo decorrer poucos anos depois da Guerra das Malvinas (1982), que os ingleses não se cansam de se proclamar como vencedores, seja dentro ou fora dos estádios.

É nessa dupla natureza que o documentário mostra força, particularmente quando procura a beleza pura do jogo, com Maradona no auge e a marcar um dos melhores golos de sempre, depois do tal célebre salto com Peter Shilton em que, digamos, cabeceou com a mão. Por outro lado, o filme procura o peso político, histórico e emocional que transformou a partida tanto numa ferida como num mito.

Neste âmbito, não há qualquer convidado com pergaminhos em História, optando-se assim pela primazia do jogo e dos seus intervenientes: os jogadores. A opção por ouvir futebolistas dos dois lados — Gary Lineker, Jorge Valdano, Oscar Ruggeri, Peter Shilton, John Barnes, Ricardo Giusti e Julio Olarticoechea, enquanto Diego Maradona surge através de imagens de arquivo — dá ao filme uma dimensão coral e evita a simples celebração nacionalista, mas frequentemente — via jogos da montagem que, depois de mostrarem o evento, aplicam “o seu próprio” efeito Kuleshov para mostrar expressões nos rostos — entrega excesso de reverência.

No fim das contas, The Match olha para o desporto como uma memória coletiva endeusada, e o seu mérito está em tratar aquele encontro como um acontecimento vivo. Se as Malvinas foram um campo de batalha onde tombaram soldados, o Estádio Azteca tornou-se outro território de confronto — mas com a matéria própria do cinema, onde o desporto funciona como metáfora para algo maior: não uma fábula de David contra Golias, nem uma história de underdogs, mas uma guerra dos homens aos deuses, com Maradona no centro do mito e o relvado transformado em palco de reparação simbólica.

No final, Maradona ficou na história e Glenn Hoddle com os bolsos cheios, por ter ficado com a camisola 10 mais famosa do planeta. E até aqui se vê que o neocolonialismo permanece, tal como as Malvinas permanecem as Falkland.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-match-a-mao-de-deus-depois-da-mao-de-byronSe as Malvinas foram um campo de batalha onde tombaram soldados, o Estádio Azteca tornou-se outro território de confronto — mas com a matéria própria do cinema, onde o desporto funciona como metáfora para algo maior