23 de agosto de 2021. Após a retirada dos EUA do Afeganistão e a incapacidade do governo em conter o avanço dos talibãs, o aeroporto de Cabul transforma-se no epicentro de fuga e desespero. Nesse dia, Shahrbanoo Sadat, nascida em Teerão (Irão), em 1991, conseguiu abandonar o país com o apoio da embaixada francesa. Poucos dias depois, numa entrevista ao The Hollywood Reporter, a realizadora — formada em documentário no Atelier Varan, em Cabul, e cuja primeira curta-metragem de ficção, “Vice Versa One”, foi selecionada para a Quinzena dos Realizadores de Cannes, em 2011 — anunciava a intenção de filmar o que vivera. Concretizou essa promessa com No Good Men, filme de abertura da Berlinale 2026, que revisita o momento da chegada dos “estudantes” (tradução literal dos talibãs) e a corrida contra o tempo de quem temia represálias com a sua ascensão ao poder.
Ao contrário de obras de pendor mais operacional, como 13 Dias e 13 Noites, centradas nas manobras da embaixada francesa para evacuar centenas de pessoas sob o olhar atento dos novos donos do país, Sadat recua ao período imediatamente anterior, quando o regresso do antigo regime ainda parecia uma ameaça distante, mas latente, particularmente pelos atentados que iam fustigando o país. O filme conduz-nos à redação da principal estação televisiva de Cabul, onde a tensão se instala antes do colapso.
É nesse contexto que surge Naru, a única operadora de câmara da estação, que luta para manter a custódia do filho de três anos e afirmar-se profissionalmente num meio dominado por homens. Após abandonar o marido infiel e confrontada com uma sociedade patriarcal que restringe as mulheres ao espaço doméstico e à maternidade, convenceu-se de que não existem homens bons no seu país. É por isso surpreendida quando Qodrat, o jornalista mais influente da Kabul TV, lhe propõe uma oportunidade decisiva. Naru agarra-a com determinação, mas a proximidade entre ambos evolui para algo mais, num ambiente onde o regresso dos talibãs ameaça tudo e a vida familiar de Qodrat revela sinais igualmente tóxicos.
O mais curioso e estimulante em No Good Men é a forma como assume o molde da comédia romântica em pleno território afegão. A comparação pode soar improvável, bizzara e “yankee” até, mas enquanto nos é mostrada a forma como a sociedade afegã observa e condiciona as mulheres, com os seus vícios sociais mascarados de tradição, e enquanto se adensa a sombra do regresso dos talibãs, Shahrbanoo Sadat encontra espaço para alguma leveza, para o humor e até para o absurdo do quotidiano.
Nesse cruzamento entre o filme romântico, filme sobre o jornalismo e filme de um cerco, nasce um conto íntimo sempre longe de tentar ser um crowd pleaser ou um drama lacrimoso. Ao invés, Sadat opta por construir um objeto delicado e politicamente consciente sem necessidade de o proclamar, onde o amor surge como gesto de afirmação e resistência num mundo prestes a ruir. Contribuem decisivamente para essa densidade e leveza a fotografia cuidada de Virginie Surdej, aliada ao design de produção e guarda-roupa pronto tanto a nos dar os ambientes coloridos do espétaculo televisivo como os deprimentes e mais escuros da realidade; a montagem precisa de Alexandra Strauss, no diálogo entre diferentes géneros cinematográficos; e a capacidade da realizadora e argumentista em unir ficção, experiência pessoal e material de arquivo (imagens televisivas da época). E nisto cria assim uma obra invariavelmente íntima, mas simultaneamente histórica e elegíaca.



















