Mobilização é o substantivo comum às personagens dos filmes de Emmanuel Courcol, ator e realizador francês atraído por figuras capazes de conduzir representantes de classes sociais em estado de vulnerabilidade à ação, à reação. Foi assim em África dos anos 1920 de “Cessez-le-feu” (2016). Foi assim na prisão arejada por um trabalho de teatro carcerário de “Un Triomphe” (2020). Agora, em 2024, é assim com os operários ameaçados pelo desemprego numa pequena cidade do desigual “En Fanfare”, projetado na seção Cannes Première, em maio, e (bastante) aplaudido na passagem por San Sebastián, na mostra Perlak. Marca autoral ele tem, mas carrega também a recorrente cicatriz da obra de Courcol: a inabilidade de gravitar do riso ao drama com fluidez, embaralhando os registos sem uma mescla orgânica.

Para sua sorte, o cineasta tem uma precisão invejável na escolha dos seus protagonistas, o que se comprova no desempenho de Benjamin Lavernhe. O seu carisma tonifica situações de fragilidade (física e mental) que vive no papel do maestro Thibault, da mesma forma que empresta credibilidade (e energia) a circunstâncias cómicas, algumas nas raias da ingenuidade. Pierre Lottin, que quase galga a condição de coprotagonista, tem também os seus voos rasantes em cena, mesmo numa interpretação mais contida.

Ambos gravitam entre sentimentos difusos numa narrativa que testa as fronteiras cinemáticas em sequências nas quais a música é a estrela maior, seja na regência de um concerto, seja no ensaio de uma banda ou seja ainda num utilização melodramática da voz de Charles Aznavour. A fotografia de Maxence Lemonnier, num acabamento técnico acima da média para produções francófonas mais comerciais, valoriza plasticamente a sinestesia gerada por esses momentos musicais da longa-metragem.

O confronto essencial no enredo é o empenho de dois homens (de perfis variados), que só foram apresentados já em idade adulta, para aceitarem o facto de serem irmãos e se ajudarem mutuamente. Ao ser diagnosticado com leucemia, Thibaut (Lavernhe, impecável) descobre que foi adotado quando era bebé e não pode contar com a medula da irmã (adotiva), pois existe uma incompatibilidade de DNA. Uma saída aparece quando ele é informado de que tem um irmão biológico, o assistente de cozinha Jimmy (Lottin), que gasta o seu tempo vago a ensaiar por uma banda formada por instrumentistas amadores. Ele pode ser um doador. Ao ser apresentado a Thibaut, o rapaz aceita ajudar o regente, mas, em troca, pede o auxílio dele para ensaiar o seu grupo numa releitura do “Bolero” de Ravel.

Existe uma outra camada (sociológica) neste enredo: o facto de que o conjunto de Jimmy corre o perigo de ficar sem soldo, uma vez que a indústria onde trabalha será desmobilizada. Essa é uma trama paralela que poderia enriquecer a espinha dorsal da película, mas acaba por ser desperdiçada no argumento, que parece indeciso ao escolher que caminho a seguir. A rota mais atraente é a da conexão (com os seus subjacentes desencontros) fraterna, contudo, Courcol por vezes prefere apostar na trajetória profissional de Thibaut (sempre bem-sucedida, o que não estimula conflitos dramatúrgicos), sem o cuidado de lapidar melhor o seu mundo (interno e o externo). Opta ainda pelo registo dos músicos que seguem Jimmy, caminhando por uma trilha antropológica caricata. No meio dessa confusão toda, a dimensão de espetáculo de uma dramédia que se propunha a ser pop acaba travada. O desfecho apoteótico, entretanto, atenua os deslizes da realização.    

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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