Primeiro lançamento de peso do cinema brasileiro em 2026, com uma estrutura típica das estreias de blockbusters, Agentes Muito Especiais afirma-se como um necessário tratado queer sobre a aceitação da diferença. Consegue, em simultâneo, desmontar as engrenagens do filão narrativo dos “dois polícias” — o durão e o bonzinho — e exorcizar uma estereotipia que se cristalizou em torno das personagens gays nas comédias brasileiras associadas às chanchadas. Embora um dos pilares da representação homossexual nos ecrãs da América do Sul remonte ao início dos anos 1920 — Augusto Aníbal Quer Casar (1923) —, consolidou-se uma tendência, criticada no presente, para personagens “afetadas”, marcadas por uma flamboyance redutora e desrespeitosa das diferenças e orientações sexuais, sobretudo na filmografia popular oriunda do Rio de Janeiro entre 1934 e 1962. Dramas de peso das décadas seguintes, como A Casa Assassinada, combateram esse ranço.
Um novo embate faz-se sentir agora no território da chamada neochanchada, fluxo narrativo nascido em 2005 com Se Eu Fosse Você e que continua a repaginar a dramaturgia cómica carioca — e, em menor escala, paulistana — acompanhando a emergência das classes sociais E, D e C no poder de consumo e na ficção. O que se vê nesta produção protagonizada por Marcus Majella e Pedroca Monteiro — numa alquimia à la Tom Hanks e Dan Aykroyd em Dragnet — é um humor combativo, marcado pelo rasto autoral de um cineasta que assumiu a comédia como campo de investigação dos afetos: Pedro Antonio.
Com êxitos de bilheteira no currículo — Tô Ryca, visto por cerca de 1,1 milhões de espectadores há quase uma década — e uma série de sucessos nas franjas do pop, entre eles Evidências do Amor, com Fábio Porchat e Sandy, Pedro Antonio regressa agora com um exercício de thriller bem-humorado que castra a hipocrisia do legado bolsominion, referência ao conservadorismo de Jair Bolsonaro e à sua rápida contaminação do tecido social brasileiro entre 2016 e 2022. Em paralelo com a destreza que demonstra no domínio das cartilhas da ação em Agentes Muito Especiais, o realizador regressa também a uma franquia que redefiniu a representação da “família brasileira”, desafiando a sanha moralista que algemou tornozeleiras conservadoras a muitos lares do país. Em 2025, filmou a terceira parte de Um Tio Quase Perfeito, saga que encheu salas em 2017 e cuja segunda entrada foi amplamente acolhida pelo público em plena pandemia, em 2021. Marcus Majella é também seu parceiro nesse universo, no papel do Tio Tony. O ator tornou-se o seu Robin Williams, numa relação que evoca a do clown de Mrs. Doubtfire (1993) com Barry Levinson, realizador de Good Morning, Vietnam (1987) e Toys (1992).
Filho da produtora Gláucia Camargos e do cineasta Paulo Thiago (1945–2021), Pedro Antonio chegou a estudar técnicas circenses de palhaçaria para compreender com maior precisão o âmago da gargalhada. A sua cinefilia, porém, nasce de uma escola informal: a Sessão da Tarde, da TV Globo. Crescido entre as décadas de 1980 e 1990, beneficiou do período áureo desse programa, estreado a 4 de março de 1974 com 8½ (1963), de Federico Fellini, e The Perils of Pauline (1967), com Pat Boone. A rubrica mantém-se no ar, embora hoje algo depauperada. Entre 1981 e 1999, o Brasil beneficiou, em televisão generalista, de uma curadoria preciosa no horário das 15h às 17h, com o melhor da dobragem nacional, assinada por estúdios como a BKS, a Telecine, a VTI e, sobretudo, a Herbert Richers.
Nesse contexto, Dragnet era presença recorrente, tal como os fenómenos de John Hughes (Ferris Bueller’s Day Off), Neil Israel (Moving Violations), a trilogia inicial de Indiana Jones, de Steven Spielberg, e ainda Beverly Hills Cop (1984), com Eddie Murphy “a falar português”, na voz de Mário Jorge. Antes da consolidação das patrulhas da correção política no país, até Rambo II (1985) e Conan the Barbarian (1982) passavam em exibições vespertinas, muitas delas centradas em parcerias policiais. Um exemplo recorrente era Miami Supercops (1985), com Bud Spencer (1929–2016) e Terence Hill.
É desse caldo cultural que nasce o cinema agridoce de Pedro Antonio, fiel à ideia de que fazer comédia exige um olhar atento sobre o mundo. O riso nasce do olhar do desejo, não do olhar do poder — como demonstram os inúmeros filmes de Steve Martin exibidos à exaustão na Sessão da Tarde, dobrados por André Filho ou Hélio Ribeiro. Com essa premissa, o realizador abraçou Agentes Muito Especiais atento às exigências do presente. Numa entrevista recente, explicou: “o que aumentou foi o senso crítico em torno do ‘eu posso’ e, portanto, certas violências simbólicas praticadas no passado, muitas vezes sem consciência disso, acabaram… ou estão hoje sob alerta”. Procura, assim, uma comédia onde a graça emerge do quotidiano e onde a verdadeira violência é a dificuldade de sobreviver. Entre esses obstáculos, a intolerância homofóbica surge como um cancro em metástase.
Essa visão estava já na génese de Agentes Muito Especiais, argumento idealizado por Majella e por Paulo Gustavo (1978–2021), estrela da milionária franquia Minha Mãe É Uma Peça (2013–2019). A proposta era que dois homens gays percorressem um arco dramatúrgico semelhante ao de Lethal Weapon (1987): o polícia perigoso e o polícia mais pé no chão. A premissa foi retrabalhada como guião por Fil Braz. O que brota desse processo é cítrico e crítico como La Cage aux Folles (1978), mas devidamente abrasileirado.
A narrativa arranca quando o destemido investigador Jeff (Marcus Majella, em grande forma) decide prestar provas para o Centro de Operações de Inteligência da Polícia (COIP), uma espécie de BOPE — o Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar carioca, retratado em Tropa de Elite, vencedor do Urso de Ouro em 2008. Durante as provas, conhece o agente Johnny (Pedroca Monteiro, com ecos de Jacques Tati), um funcionário público medroso e desajeitado que vive sob a proteção da mãe. Jeff enfrentou violências de ontem, de hoje e de sempre e já “saiu do armário”. Johnny, pelo contrário, mantém-se recatado, virgem e sem assumir a sua orientação. Do encontro nasce uma transformação mútua típica da dramaturgia do coprotagonismo: a fera humaniza-se e o herói reprimido floresce. Algo próximo do que se viu em Cop Secret, thriller queer islandês realizado por Hannes Þór Halldórsson, candidato ao Leopardo de Ouro em Locarno, em 2021.
Equilibrado entre graça e adrenalina pela montagem de Zaga Martelletto, o filme acompanha Jeff e Johnny no confronto com o temido Bando da Onça, quadrilha liderada por uma criminosa misteriosa interpretada por Dira Paes, num desempenho arejado pelo seu carisma em ebulição. A personagem reinventa, ainda que involuntariamente, vilãs lendárias tanto da Sessão da Tarde — como Taramis, de Conan the Destroyer — como das bandas desenhadas da Marvel, evocando a Víbora, antagonista de Wolverine em Madripoor.

Infiltrados na gangue sem revelar que são polícias, Jeff e Johnny constroem, sequência após sequência, uma parceria profissional e afetiva que sustenta situações eficazes de humor e pavimenta um debate sobre afirmação identitária. Nesse processo, Pedro Antonio entrega a ribalta aos protagonistas, reforçando o que há de virtuoso no conceito de “lugar de fala”. O resultado é um espetáculo de alcance universal, que evoca Partners (1982), de James Burrows, com Ryan O’Neal (1941–2023) e John Hurt (1940–2017), exibido em Portugal como Sócios e no Brasil como Dois Tiras Meio Suspeitos.
Sob a batuta de Pedro Antonio, Majella assume um O’Neal com potência suficiente para conduzir o público em massa a uma história de amor improvável, enquanto Pedroca encarna um John Hurt com galhardia e inteligência cénica, transpondo para o cinema o melhor do seu trabalho teatral. No elenco, destacam-se ainda o comandante interpretado por Chico Diaz e o bandido apaixonado vivido por Dudu Azevedo, ator subestimado que merecia maior projeção. Ele surge como uma espécie de líder dos Daltons do Terceiro Mundo: Juninho (Demétrio Nascimento), Mona (Big Jaum), Bola (Saulo Arcoverde) e Big (Saulo Segreto).




















