Demasiado fascinado com o luxo que alegadamente pretende satirizar, num vaivém constante de product placement do mundo da moda e de artigos de luxo, o novo filme de Karim Aïnouz entrega-se sobretudo como mais um exercício de alienação fetichizada de uma classe milionária materialmente privilegiada, mas profundamente disfuncional e emocionalmente esvaziada. É um objeto interessante – conceptualmente – pelas discussões que pode suscitar, mas insuficiente enquanto verdadeira crítica ao universo que retrata.

Inspirado em Fists in the Pocket (1965), de Marco Bellocchio, o filme conduz-nos a uma mansão na Catalunha, onde vive uma família americana isolada numa bolha de luxo. O embrulho das suas vidas pode até ter o aspeto Balenciaga, mas a perenidade emocional e a dinâmica familiar revelam um verdadeiro pechisbeque afetivo. Liderados por um pai cego (Tracy Letts), obcecado em comprar relógios mesmo sem conseguir ver as horas, encontramos quatro irmãos — Edward (Callum Turner), Anna (Riley Keogh), Robert (Lukas Gage) e Jack (Jamie Bell) — presos num ecossistema fechado onde o privilégio material contrasta com o vazio estrutural das suas relações.

O único que pelo menos tentou afastar-se da esfera ultratóxica daquele ambiente é Jack, aparentemente o mais próximo da normalidade. Ele inicia uma relação com Martha (Elle Fanning), uma jovem guitarrista, e é o surgimento desta figura externa que irá desencadear uma série de reações na matilha familiar, sempre pronta a encerrar e controlar os seus membros. Será essa possibilidade de “fuga” de Jack que vai expor as enormes fragilidades de um núcleo que se sustenta na dependência, no controle e numa intimidade partilhada – que a mãe dos rapazes (Pamela Anderson) vai “assistindo” à distância.

Com argumento de Efthimis Filippou, colaborador habitual de Yorgos Lanthimos (Dogtooth (2009), The Lobster (2015), The Killing of a Sacred Deer (2017), conhecido por construir personagens dinâmicas e diálogos estranhos, marcados por humor negro e distanciamento emocional, Rosebush Pruning mergulha num microcosmo de tensões, obsessões e comportamentos perturbantes, incluindo afetos incestuosos, abusos sexuais e uma profunda alienação face ao mundo exterior. Havia aqui matéria-prima para uma análise crítica que fosse além do choque e da estilização. Contudo, tal como Aïnouz demonstra neste filme — e como Lanthimos evidenciou em Kinds of Kindness (2024) —, o tom nunca é afinado de forma consistente para que a sátira ganhe verdadeiro peso. 

Não ajuda o escasso desenvolvimento das personagens — em particular de Anna, a figura menos trabalhada — e a estética de anúncio premium reforçam essa sensação. O resultado final é um objeto cinematográfico também ele disfuncional, visualmente marcante, com atmosfera própria, mas com pouco conteúdo e uma crítica que nunca se concretiza plenamente.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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