Tom Hooper, vencedor do Óscar de Melhor Realizador, por ‘O Discurso do Rei, é um londrino de origem australiana, de 39 anos. Oriundo de boas famílias, estudou em Oxford e foi alternando o cinema com a televisão. Estreou-se com o filme ‘Red Dust’ (2004), liderado por Hilary Swank e dirigiu Helen Mirren na série ‘Elizabeth I’ (2005). Sucedeu-lhe a mini-série ‘John Adams’ (2007) e depois a longa sobre o mítico treinador de futebol Brian Clough, em ‘Maldito United’ (2009).
O britânico de 39 anos explicou a atracção pela história dramática do Rei Jorge VI que esteve na origem de ‘O Discurso do Rei’, vencedor de 4 Óscares, incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Actor (Colin Firth).
Quando começou este projecto, já tinha este ‘cast’ em mente?
O Geoffrey (Rush) já estava ligado ao projecto. Aliás o filme começou como uma peça de teatro que não chegou a ser produzida. Foi Geoffrey que ao ler a peça terá dito ao seu agente que aceitava, mas queria antes fazer um filme, não uma peça de teatro.
E quanto ao Colin (Firth)?
Foi também uma escolha óbvia, embora o seu porte físico fosse bem diferente. O Jorge VI era baixo e franzino, embora o espírito de um homem bondoso se adaptasse lindamente a Colin. Quanto a Helena (Bonham Carter) foi outra escolha fácil, até porque gosta de interpretar rainhas (risos)…
Até que ponto o lado factual desta história foi importante para si?
A ideia é precisamente essa: ou seguimos o lado físico ou a personalidade. Seja como for, a descoberta dos diários do neto de Logue (personagem de Rush) foi um elemento crucial para o filme.
Há um grande contraste entre este filme e o anterior ‘Maldito United’. Se Jorge VI vive um problema de confiança, já o treinador de futebol Brian Clough (Michael Sheen) era extremamente optimista. Foi isso que o fascinou?
Na verdade, não gosto de me repetir muito. Depois de fazer a mini-série ‘John Adams’ (2008), com 110 milhões de dólares, a ideia de fazer um filme de baixíssimo orçamento, no norte de Inglaterra, pareceu-me deliciosa e subversiva. Agora regressar de Brian Clough à família Real britânica é uma mudança interessante. Mas o elo que liga todas estas personagens são os seres humanos demasiado imperfeitos. Talvez a única diferença é que, ao contrário dos egos enormes de Bryan Bloth e John Adams, o Bertie não tinha ego nenhum… (risos)
Tentou obter alguma informação da Casa Real sobre Jorge VI?
Eu adoraria ter podido tomar chá com a Rainha e ter falado do pai dela, mas o convite não chegou… (risos) Apenas pudemos consultar alguns arquivos reais.
Mas o que diria à Rainha se tivesse uma sessão de 10 minutos com ela?
Essa é uma boa pergunta. Talvez: “como era o seu pai?” (risos)… A sério, o que mais desejei saber era como seria a gaguez dele quando estava com a filha, num momento de calma e descontracção.
Acha que alguma vez o povo britânico irá questionar a monarquia?
Não sei. Este filme fala da última crise, a abdicação, mas acabou por ser superada. Na altura perto de um milhão de pessoas tinha morrido por “o Rei e a Nação”. Entretanto, o Rei abdica para casar com uma americana duas vezes divorciada, porque não quer ser Rei… Acho que o Bertie conseguiu essa redenção. E a sua filha, a Rainha Isabel, abraçou esse sentido de dever que as pessoas respeitam. Acho que seria necessário uma nova crise… Por outro lado, vivemos num país de entretenimento. E nessa media a Família Real é um bem valioso.
O filme tem tido um enorme sucesso nos EUA e é apontado como um sério candidato aos Óscares. Como encara essa possibilidade?
Assim parece, mas eu vivo um dia de cada vez. O fascínio dos Óscares é incontrolável. A verdade e que é um filme que merece ser visto no meio do público.
Explique-nos um pouco, só para terminar, o seu fascínio sobre o cinema, pois trata-se de uma paixão precoce…
Sim, apaixonei-me pelo cinema e quis ser realizador aos 12 anos. Comecei a fazer filmes com treze anos e fiz a minha primeira curta metragem para o Channel 4, no festival de cinema de Londres, aos 18 anos. Sim, fui um autodidacta.
Publicado no Correio da Manhã

