Pedra angular da Era Stan Lee (1922–2018) e Jack Kirby (1917–1994) nas BD, o grupo conhecido como Quarteto Fantástico era alvo de uma falácia entre as restantes personagens do universo Marvel, segundo a qual nunca seria capaz de deter ladrões, falsificadores ou até terroristas, pois não tinha qualquer experiência nesse tipo de combate ao mal. A especialidade deles era conter hordas de invasores estelares, monstros carnívoros do tamanho gigante, frotas de extraterrestres com raios laser. Bandidos de segunda eram tarefa para o Homem-Aranha ou para o Justiceiro. A missão do clã Richards (Reed, Sue e Johnny) e do seu amigo Ben Grimm, o Coisa, é aquilo que liga a banda desenhada à ficção científica, com fronteiras que nem a Enterprise do Capitão Kirk conseguia ultrapassar. Esta ideia foi contestada nas alturas em que o Ben enfrentou marginais e grupos de antissemitas em histórias que exploravam o seu passado ligado à cultura israelita. Também gerou um dos bons diálogos em “The Fantastic Four: First Steps, altura em que Reed — encarnado por um Pedro Pascal com ares de Burt Lancaster — faz menção ao controlo da taxa de criminalidade na América, com o objetivo de garantir um terreno seguro para a chegada do seu filho, Franklin.

Por aí percebe-se que, apesar das liberdades que tomou numa releitura vintage — inspirada em séries de televisão dos anos 50 e 60 e na pintura de Norman Rockwell (1894–1978) —, o realizador Matt Shakman (conhecido por séries como”WandaVisione “Game of Thrones) teve o cuidado de reverenciar as comics que deram origem aos seus protagonistas.

Pedro Pascal dá vida a Reed (um inventor com poderes elásticos) como um herói ultrarromântico, carregado de Transtorno Obsessivo Compulsivo e angústias, tal como nas sagas escritas e ilustradas por John Byrne nos anos 1980. Foi Byrne quem acentuou ainda mais a já considerável vulnerabilidade de cada membro do Quarteto, elevando a equipa a um pico de excelência nas suas revistas e álbuns. É esse clima que o filme de Shakman explora, com o cuidado de garantir a cada um dos membros um momento de apoteose.

Vanessa Kirby constrói Susan Storm, a Mulher Invisível, com os seus campos de força, num registo melodramático elegante, explorando dilemas ligados à maternidade. Joseph Quinn domina cada plano em que aparece, envolto nas chamas de Johnny Storm, o Tocha Humana — a melhor encarnação que o cinema já viu, pelo menos à luz das três adaptações anteriores da BD. Por fim, com o ar de uma fera ferida, massacrado pela condição de ter o corpo de pedra, o Coisa de Ebon Moss-Bachrach transpira carência — exceto quando grita: “It’s clobberin’ time!“.


A direção de arte é de um colorido equilibrado e de fina precisão, com especial cuidado no uso da cor azul, presente nos uniformes dos heróis. A fotografia de Jess Hall mergulha nesta linha cromática, estabelecendo um diálogo com o padrão de cor seguido pela Marvel nos anos 60 e com o álbum Parábola, de Stan Lee e Moebius (1938–2012), citado expressamente nos diálogos e na representação da criatura conhecida como Galactus, a verdadeira e imediata ameaça da trama. Só que não se pode chamá-lo de vilão.

Galactus é uma entidade. Uma espécie de força mística cujo papel no cosmos é destruir os planetas que atingiram um limite de validade, seja por entropia geológica, seja por decadência da sua população. Daí lhe advém o título de Devorador de Mundos. Ele “come” — ou seja, antecipa processos de entropia — planetas que a astrónoma Shalla-Bal, lhe indica, protegida por um revestimento de prata que cobre o corpo e lhe confere a capacidade de disparar rajadas de energia.

Originalmente, Kirby e Stan criaram um arauto: Norrin Radd, o Surfista Prateado. Shakman optou por explorar uma realidade alternativa em que Shalla-Bal, a amada de Radd, é a mestra do surf entre os asteroides. Julia Garner interpreta este papel com alguma contenção, mas cumpre o que o guião exige, sobretudo em termos de tensão dramática.

Não se trata de uma história centrada em combates contra um tirano fanfarrão. Isso fica para quando Victor von Doom, o Doutor Destino (encarnado por Robert Downey Jr.), surgir nas futuras longas-metragens da Marvel. “First Stepsaproxima-se mais da tradição cinéfila dos filmes de catástrofe, à maneira de “O Dia Depois de Amanhã(2004) e “Armageddon(1998), alinhando-se também a referências pop como a série animada “Os Jetsonse ao seu robô, Herbie. É uma abordagem leve a um marco da arte sequencial, sustentada por interpretações impecáveis.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
quarteto-fantastico-primeiros-passos-um-tributo-as-bds-que-pavimentaram-a-marvel"First Steps" aproxima-se mais da tradição cinéfila dos filmes de catástrofe, à maneira de "O Dia Depois de Amanhã" (2004) e "Armageddon" (1998), alinhando-se também a referências pop