Uma das vozes mais refrescantes e potentes (trocadilho fácil em homenagem à sua atriz fetiche, Franka Potente) do cinema germânico da década de 1990 em diante, particularmente depois de ter assinado filmes como “Deadly Maria” (1993), “Winter Sleepers” (1997), “Run, Lola, Run” (Corre, Lola, Corre, nomeado ao Leão de Ouro de 1998), “Heaven” (2000), “The Princess and the Warrior” (2001) e “Perfume” (2006), Tom Tykwer ganhou nova vida quando trabalhou com Lana e Lilly Wachowski na composição sonora de “The Matrix Revolutions”(2003), uma parceria que ganhou novos contornos em “Cloud Atlas”, que o trio correalizou.
Nesse processo de colaboração, o vibrante germânico que parecia fazer cinema ao ritmo da música (em especial Corre Lola Corre) parece que absorveu alguns dos maiores problemas da dupla criativa de “Matrix”, em particular na forma como a sua sensibilidade – temática, humana e cinematográfica – frequentes vezes cai na exploração, na superficialidade e até sentimentalismo de pacotilha, como se viu – principalmente – na série de TV “Sense8”, onde Tykwer chegou a assinar uns episódios. “Das Licht” (A Luz), o seu novo filme, estreado na Berlinale, parece ele mesmo atravessar a história cinematográfica de Tykwer, começando como “Corre Lola Corre”, na sua construção cénica e ritmo eletrizante, além de mostrar como as escolhas de vida da personagem título podem mudar o seu percurso, mas desagua numa inflexão que se pretende filosófica, política e social, mas que apenas atinge a esfera da “empatia” vendida a metro nos livros de autoajuda.
Filme que já se sente “velho” na apresentação de uma família disfuncional ocidental, que bem podia ser a típica suburbana norte-americana (vide “Short Cuts” de Robert Altman, “Magnolia” de Paul Thomas Anderson, ou metade do chamado “cinema indie”), “A Luz” segue Lars Eidinger e Nicolette Krebitz, como Tim e Milena Engels, um casal a desmoronar-se, cuja família inclui os gémeos quase adultos Frieda (Elke Biesendorfer) e Jon (Julius Gause), além do filho ilegítimo Dio (Elyas Eldridge). O mundo dos Engels ganha animação e novas perturbações quando uma nova governanta, Farrah (Tala al Deen), vinda da Síria, entra nas suas vidas, trazendo com ela um dispositivo (a tal Luz), com tanto de científico como qualquer artigo New Age, que os vai encaminhar novamente na rota da compreensão, amor e preservação, questionando o privilégio (branco e europeu) e as suas hipocrisias, em particular a do silêncio usado como aparente neutralidade, mas que serve apenas para manter o “status quo”. É isso mesmo se lê num cartaz que os Engels têm no seu corredor, uma frase que principalmente Tim e Milena esqueceram, embora as suas vidas, que tanto procuram “melhorar” o mundo, apenas o afundem num marasmo de paternalismo, egoísmo e egotismo.

Se a presença de Lars Eidinger no elenco, de forma involuntária, nos leva a um drama alemão que assombrou a Berlinale no ano passado, “Sterben”, onde as desconexões humanas e geracionais no seio de uma família já mostravam um estado de moléstia da familiar tradicional alemã (e europeia e ocidental), é em Nicolette Krebitz (também realizadora, de filmes como “Wild“) tem o seu motor de exploração dramática e de insatisfação profunda. Porém, a “A Luz” não faz mais que acentuar um estudo já de décadas às disfunções familiares, coreografando a vida com recurso frequente à dança e ao género musical, com “Bohemian Rhapsody” dos Queen a ganhar “uma nova vida” como centro nervoso de uma peça sobre a desintegração sustentada num privilégio ocidental que parece ter retirado o foco do que mais importa. Consequentemente, as ações paternas refletem-se nos filhos, que ora se afundam no isolamento social e alienação, ora procuram curar essa ausência em ativismos e relações grupais (que podemos chamar de “crenças de luxo”) que amoleçam a sua insensibilidade à valorização de uma vida deveras privilegiada.
Boas intenções não faltam a Tykwer, tal como não faltavam na já referida série “Sense 8”, mas na sua crítica ao paternalismo, privilégio e autoridade moral (longe do altruísmo e próxima do egoísmo), “A Luz” cai na sua própria armadilha e é todo ele “alienação” e afirmação do status quo.




















