Uma das maiores vantagens que os “novos” serviços de streaming trouxeram para o mercado do entretenimento foi a desformatação do padrão tempo na duração de filmes e séries. Se na TV, pensando-se constantemente nos anúncios publicitários, fomos forçados a um sistema fixo de capítulos com x minutos (20, 40, por aí fora), o streaming deixou isso de lado, com séries com episódios de maior duração e outros mais bem curtos a galgarem terreno lado a lado.
No caso desta antologia Small Axe, Steve Mcqueen usa essa maior liberdade para construir filmes de diferentes duração, ora acima das duas horas (“Mangrove“; “Red, White and Blue“), ora abaixo, como “Lovers Rock” e este “Alex Wheatle”, que pouco ultrapassa uma hora de duração. Não quer isto dizer que estejamos perante um filme menor desta coletânea, até porque sabemos que mais tempo não é sinónimo automático de maior qualidade e até profundidade.
Na verdade, “Alex Wheatle” é um dos objetos mais interessantes desta machadada cirúrgica na história contemporânea negra britânica dada por Steve McQueen, nem que seja por ser o único dos capítulos em que a personalidade britânica do seu protagonista ainda não está formada.
Tudo começa na prisão, quando um jovem (Sheyi Cole) em ebulição contra o mundo em geral encontra no colega de cela (Robbie Gee) um escape para libertar aquilo que tem reprimido dentro de si: o não ter uma família, raízes, uma identidade definida, e da sua vida ser um acumular de desilusões e injustiças.
De infância sofrida e adolescência marcada por sistemáticos abusos, este homem – repleto de fragilidades físicas (asma e outras doenças) e psicológicas (rejeição)- vai nos mostrando em flashbacks a sua incursão por uma sociedade britânica segregada de forma vincada, mas aparentemente abstrata. Sempre perdido, desde tenra idade, pela ausência de alicerces familiares, de uma História, e com uma vida que cabe num dossier dos serviços sociais, Alex vagueia entre amigos de ocasião e conhecidos à procura de se encontrar e sobreviver. Pelo caminho lida frequentemente com a discriminação e verdadeiros atentados aos direitos humanos e, nesse aspeto, McQueen rasga ele mesmo a sua estrutura estética e narrativa ficcional por vias de registos documentais do incêndio/massacre de New Cross, onde a 18 de janeiro de 1981 o fogo ceifou a vida de 13 jovens negros com idade entre 14 e 22 anos.
Entre imagens de arquivo e uma narração poética e dorida dos factos, McQueen mostra o ponto de viragem – e início da descoberta identitária – daquele que viria a ser o escritor britânico Alex Alphonso Wheatle, condenado a uma pena de prisão após os protestos em Brixton (1981). Uma detenção não diferente daquelas que sofreu na infância, ou na adolescência, onde injustamente chegou a ser amarrado com um colete de forças por responder à injustiça. Essa cena em particular, com um grande plano de Alex no chão é replicada/repetida mais à frente na sua vida, quando após um desacato na porta de uma discoteca acaba novamente amarrado na parte de trás de uma carrinha da polícia.
McQueen precisou apenas de 1 hora para mostrar a criação (ou antes, descoberta) de um homem que se sente como tantos da diáspora – perdido numa terra sem familiares diretos e onde a maioria o apelida de “macaco” e o vê como um problema.
Para não variar nesta antologia, este verdadeiro coming-of-age é movido pela música. O próprio Alex o diz enquanto tenta encontrar o seu lugar num local que é o seu, mas que o rejeita sistematicamente. E mais uma vez McQueen entrega uma sonoridade mesmerizante, quase tão importante como no vibrante “Lovers Rock”.




















