Depois de um “episódio/filme” (Lovers Rock) de cores e sons vibrantes que nos aqueceram e serviam de nuance ao calor político do filme de tribunal e justiça que foi “Mangrove“, Steve McQueen volta a entrar pela violência policial a dentro e na análise ao racismo incrustado nas instituições da lei neste “Red, White and Blue“, o exercício mais marcante até agora desta coletânea Small Axe, nem que seja pela contenção de uma gélida raiva e reconstrução da mesma através da decisão de mudar as coisas por dentro dessas mesmas instituições.
Uma das primeiras imagens por aqui é a de um jovem negro com uniforme escolar a ser revistado de forma “rotineira” por dois polícias. A cara de surpresa do rapaz serve como aperitivo para o que se segue: uma polícia que “aleatoriamente” continua a centrar as suas atenções nos negros, sempre protegidos por uma farda com a assinatura de exercício subjetivo da lei. O rapaz em causa é Leroy Logan, um jovem que verá o seu pai ser espancado também numa ação “rotineira” e que decide – apesar de ser diplomado e educado de “forma mais britânica que os britânicos” – concorrer a uma posição na polícia metropolitana de Londres para assim contribuir para a mudança interna da instituição.
“Red, White and Blue” é um filme de desconstrução e construção da imagem moderna da policia, tudo baseado em factos reais que nos levam pelos obstáculos e crispações que Logan encontra pelo caminho, quer na esquadra onde trabalha, onde é visto como um ser menor, mas igualmente na sua comunidade, que o considera um traidor. E nessa comunidade encontramos igualmente – numa primeira fase bem demarcada – o seu pai, que crê que o filho – a quem providenciou uma educação que o podia levar onde quisesse – baixou os seus parâmetros para entrar para uma instituição meramente opressora.
John Boyega, que já salvou o mundo de aliens (Attack The Block), mesmo sofrendo com todos os estereótipos, antes de se tornar uma estrela luminosa da nova geração “Star Wars”, assume o papel de Logan, um homem carregado de frustração mas que insiste em mudar as coisas com a esperança (ou ilusão) que ser o melhor basta para conquistar o apoio dos colegas. Isso não acontece. Logan foi ostracizado, e até deixado ao abandono em situações de perigo, mostrando que a espinha dorsal do racismo está na construção educacional que começa em casa, continua na escola e chega ao local de trabalho.
McQueen carrega o seu filme com tons frios, tem um extremo cuidado na recriação estética da época (design, guarda-roupa, penteados), usa o seu habitual jogo de reflexos e vistas (através de espelhos, vidros do carro), e executa planos que variam entre o conjunto e close-ups para mais uma vez construir alguém em permanente confrontação interna (vide “Hunger” ou “Shame“), mas que responde através da linguagem da razão, disparando os murros num saco de boxe e não em que os merecia.
E nisto McQueen consegue fazer o melhor dos filmes “Small Axe” até agora, misturando política e drama social com John Boyega a canalizar tudo através de uma história pessoal tão lancinante como emancipadora.




















