A Dança das Raposas: “Os preconceitos demoram tempo a mudar” – Samuel Kircher sobre as feridas invisíveis da masculinidade

Filho dos atores Irène Jacob e Jérôme Kircher, e irmão de Paul Kirchner, também ele ator, Samuel Kircher continua a fazer o seu trajeto, passo a passo, dentro da nova geração do cinema francês. Deu nas vistas em L’Été dernier (No Verão Passado, 2022), de Catherine Breillat, e deixou igualmente a sua marca em L’Engloutie. Mas foi em La Danse des Renards (A Dança das Raposas) que o jovem ator revela, até agora, uma das interpretações mais intensas da sua carreira.

Ainda em exibição nas salas portuguesas e realizado por Valéry Carnoy, A Dança das Raposas acompanha Camille, um jovem pugilista que, após sobreviver a um acidente graças ao seu melhor amigo Matteo, começa a ser consumido por uma dor inexplicável que ameaça o seu corpo e os sonhos que alimentava. Entre o desgaste físico do boxe e a fragilidade emocional de um rapaz incapaz de compreender o que lhe está a acontecer, o filme, baseado nas experiências pessoais do realizador, faz uma reflexão sobre masculinidade, vulnerabilidade e pressão competitiva.

Numa conversa em Paris com o C7nema, Samuel falou sobre a intensa preparação para o papel, o peso emocional da personagem e a forma como os homens continuam ainda hoje a ser ensinados a esconder a dor.

Samuel Kircher

Como foi a experiência de estar na Quinzena dos Cineastas e de ver o filme ganhar dois prémios?

Foi muito calorosa. Foi bonito ver o filme na Quinzena, numa seleção diferente da Seleção Oficial de Cannes. Todos puderam vir: os jovens atores, muita gente da equipa. Foi uma espécie de reencontro, muito alegre.

E como foi mergulhar em La Danse des renards? É um papel de grande desgaste físico, mas também atravessado por uma intensa dimensão psicológica. Como se aproximou dessa personagem? 

Foi um trabalho muito físico e psicológico, mas também coletivo. Éramos um grupo de jovens muito unido, e isso ajudou imenso.

Ensaiámos muito. Fizemos 20 dias de ensaio, o que é bastante, sobretudo porque a maioria dos jovens nunca tinha feito uma longa-metragem e alguns representavam pela primeira vez. Esses ensaios permitiram construir as relações entre as personagens e a evolução do filme. Foi precioso.

Depois houve toda a preparação para aprender boxe. Nunca tinha feito boxe.

E como foi essa experiência com o boxe?

Foi magnífica, mas construiu-se pouco a pouco. Durante quatro meses, treinei boxe todos os dias. No início, não havia nada: nem atitude, nem deslocações, nem nervo. Um jab ou um directo saíam rígidos. Mas, com a repetição, o cansaço e o regresso diário ao treino, tudo começou a ganhar verdade. A certa altura, eu e o treinador, Hamza Bouahout, percebemos que ia funcionar.

Depois vieram as coreografias dos combates, construídas quase por nós próprios, entre o treinador, o Valéry, o actor-boxeur que contracenava comigo e eu. Foi um trabalho muito colectivo — e muito bonito.

O filme tem muitos elementos autobiográficos do Valéry Carnoy. Como foi carregar um pouco dele no plateau? Como foi esse diálogo?

Aprendi pequenas expressões e tiques dele, coisas que fui apanhando.

Sente-se que ele viveu num ambiente masculino muito forte, com uma masculinidade por vezes tóxica. Ele conhece isso muito bem. Não é que ainda a tenha em si, mas conheceu-a. Fala muito bem dela e conta-a muito bem nos seus filmes.

Essa violência, essas feridas que infligimos a nós próprios para parecermos fortes, para mostrar que somos mais fortes do que os outros, ele conhece muito bem. Foi muito importante estar com ele para compreender isso: essa tentativa de serem todos estátuas muito fortes.

Enquanto homem e jovem, como olha para essa expectativa silenciosa que continua a pesar sobre os homens — a ideia de que têm de resistir a tudo sem nunca mostrar a dor? 

Sim, sente-se isso, claro. Os preconceitos demoram tempo a mudar. Ainda estão colados a nós.Mas as coisas também estão a mudar. Vemos cada vez mais figuras masculinas diferentes, variadas. Há mais variedade dentro dos géneros, para toda a gente.

Ao mesmo tempo, quando se fala de homens que podem chorar ou mostrar dor, há quem fale de “desmasculinização”. O que pensa disso?

A identidade que temos — se somos muito masculinos, mais femininos, se temos uma cultura muito francesa, americana, italiana ou portuguesa — depende muito do nosso ambiente. O mundo cola-nos muitas coisas à pele. Nascemos rapazes e logo há coisas que se colocam. Nascemos em Paris, em Olhão ou em Faro, e as expetativas não são as mesmas. Ser grande ou pequeno também muda tudo.

Por isso é bom podermos fazer triagem, separar aquilo que nos faz mal e que ficou colado à nossa identidade. É bom descobrir coisas novas, deixar espaço para outras possibilidades.

A identidade estar mais em movimento parece-me uma coisa boa. Permitir que alguém seja muito masculino, depois menos masculino, depois volte a sê-lo, se quiser, é positivo. Dá espíritos mais livres e mais curiosos.

A Dança das Raposas

Está no início da carreira. Já podemos falar de carreira? Tem um plano ou escolhe os papéis por intuição?

Escolho sobretudo pelos realizadores. Procuro olhares que me levem para outras dimensões, outros mundos.

Com o Valéry foi isso. Descobrir novas perspetivas, fazer o filme a fundo e, depois, quando a rodagem acaba, passar a outra coisa. Nós ficámos amigos, mas a rodagem acabou e é preciso seguir.

Vem de uma família com tradição de atores. O seu irmão também esteve em Cannes com Météors. Existe alguma pressão familiar?

É um trabalho com pressão, porque há expectativas, mas é sobretudo um previlégio. É algo que nos transporta e inspira.

Podemos ver os filmes da família, dos amigos, perceber as escolhas que fizeram, como abordaram um papel, uma cena, uma réplica, uma palavra, como criaram uma ligação, onde foram buscar as coisas. Como os conhecemos, isso torna-se ainda mais inspirador.

Foi também uma forma de formação para mim: observar. E há outra formação, claro, com os realizadores, como aconteceu com a Catherine Breillat.

Quer fazer coisas muito diferentes na sua carreira? Drama, ação, outros géneros?

Acho que é bom fazer coisas diferentes, desde que haja sensibilidade e inteligência. Dá vontade de experimentar, de continuar curioso.

Quando é que pensou: “Quero ser ator”?

Talvez há pouco tempo. Depois de ver L’Engloutie e La Danse des renards. São filmes de que gosto. Os últimos tocaram-me muito. É bom sentir que já fiz filmes que me agradam. Dá vontade de tentar continuar.

Tem novos projetos?

Sim. Há a primeira longa-metragem de um fotógrafo chamado Mathieu César, em que interpreto o filho de Romain Duris. É um filme feito de uma forma muito particular, com muita amizade, muita fome. Era uma equipa pequena, por isso todos tinham várias funções, várias responsabilidades ao mesmo tempo.

E o filme é sobre quê?

É sobre a relação entre um pai e um filho. O pai é totalmente marginal, e o filho sofre um pouco essa marginalidade porque, quando vai à escola e entra em espaços mais clássicos, como a escola, os amigos, os outros fazem-no sentir que é estranho porque o pai é estranho.

Quando recebe um papel, estuda referências? Para La Danse des renards, alguém lhe sugeriu filmes ou materiais?

Sim. Quando trabalho uma personagem, trabalho quase sempre com Jordan Beswick, professor de teatro e meu amigo desde pequeno.

Para este filme, ele aconselhou-me Até à Eternidade (From Here to Eternity, 1953), de Fred Zinnemann. É um filme magnífico sobre um soldado cujo superior quer obrigá-lo a boxear nas competições entre soldados. Mas ele não quer, porque no passado matou o melhor amigo através do boxe.

Todos à sua volta querem que ele boxe, porque seria bom para a divisão e as pessoas teriam orgulho nele. Ele sofre muito por recusar. Há algo muito próximo do nosso filme: todos querem que ele boxe, mas ele já não quer porque dói, porque há uma dor. Por isso vai suportar muitas coisas para conseguir não voltar a boxear. Aqui é um pouco diferente, mas existe essa ligação.

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