Presente na Quinzena de Cineastas, vencedor do prémio SACD Coup de Cœur, entregue pela Société des Auteurs et Compositeurs Dramatiques, e da distinção Europa Cinemas, “La Danse des Renards” (Wild Foxes) tem o mundo do boxe numa escola de elite dedicada ao desporto como pano de fundo para uma jornada coming-of-age que incide na exploração das masculinidades e dos ditames regrados de uma vida em busca da excelência que conduza ao profissionalismo e sobrevivência.

É num colégio interno orientado para o desporto que conhecemos Camille (Samuel Kirchner), um jovem pugilista recentemente coroado campeão francês, e cujo melhor amigo, Matteo, salva-o de um acidente mortal quando se aventura pela floresta que envolve a escola em busca de raposas. Esse acidente deixa sequelas, e se os médicos dizem que fisicamente o corpo do jovem está bem, psicologicamente ele começa a sofrer o que podemos chamar de dores fantasma, particularmente num braço agora marcado por uma enorme cicatriz. Progressivamente, a sua aura de campeão esvai-se, tornando-se mais um fardo para a equipa que mais valia. Isso vai gerar reações adversas dos colegas e a essa perda de preponderância e intensidade nos treinos leva-o a um declínio psicológico difícil de ultrapassar.

Filmes com o boxe no epicentro da movimentação das personagens existem desde que o cinema é cinema, mas centenas de anos depois o realizador belga Valéry Carnoy consegue ainda dar alguma frescura a um sub-género apoiando-se noutro: os filmes coming-of-age. Tal como em muitos filmes de soldados a serem preparados para a guerra (pense-se em ‘Nascido para Matar’, por exemplo), a fraqueza é vista como um problema que pode afetar todo no batalhão, voltando-se este de forma violenta contra o indivíduo, numa espécie de seleção natural para a sobrevivência. Assim é com Camille, que começa a ser vítima de bullying por parte dos colegas, o que o leva a crer, com legitimidade, que na verdade as amizades que construiu estão apenas ligadas à sua figura de campeão e líder (macho alfa) de uma matilha. Todos estes eventos levam o jovem a questionar a sua paixão pelo boxe e a sua estreita amizade com Matteo, num filme que estabelece um paralelismo entre a “caça” ao rapaz por parte do seu grupo, com a caça (literal) das raposas que povoam a floresta.

Filho da atriz Irène Jacob e irmão do ator Paul Kircher (Reino Animal), Samuel assume o papel de Camille de forma naturalista, seguindo a sua personagem uma rota da descoberta dura de um mundo de dor (psicológica) onde a mortalidade é assumida, o que é incorporado pelo grupo de colegas como marca de vulnerabilidade que deve ser erradicada. Esquivando-se aos clichês como um boxeur se esquiva aos socos, Valéry Carnoy ainda introduz uma figura feminina na vida de Camille, mas onde muitos encontrariam um escape emocional e romântico para um jovem numa jornada pessoal de descoberta aos obstáculos da vida, o realizador impõe distância e cria novas barreiras. 

Na verdade, “La Danse des Renards” explora o mundo implacável do universo de jovens boxeadores que lutam por ter um futuro, estabelecendo um paralelo com as raposas que povoam o bosque e que se tentam dizimar quando se tornam um fardo. Com pulso, destreza e sensibilidade, Valéry Carnoy cria assim um filme com maturidade na gestão dos afetos pessoais, enquanto traça um painel sobre a imposição de velhas masculinidades cruéis como um padrão coletivo para a sobrevivência.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
la-danse-des-renards-coming-of-age-no-mundo-do-boxe-surpreende-pela-gestao-de-afetosCom pulso, destreza e sensibilidade, Valéry Carnoy cria assim um filme com maturidade na gestão dos afetos pessoais, enquanto traça um painel sobre a imposição de velhas masculinidades cruéis como um padrão coletivo para a sobrevivência