Dois anos depois do sucesso de Época de Caça (Chasse Gardée), os realizadores Frédéric Forestier e Antonin Fourlon regressam ao universo rural onde colocaram em choque o imaginário parisiense e um espaço dominado por caçadores. Agora mais integrados, mas confrontados com novas tensões sociais e familiares, o casal agora vai ter de lidar com antigos filhos da terra, mas que ao longo dos anos tornaram-se numa sobra daquilo que eram nas suas origens.
Em conversa com o C7nema em Paris, Frédéric Forestier e Antonin Fourlon assumem o ponto de partida autobiográfico do projeto, nascido da sua própria experiência e do êxodo urbano pós-confinamento, mas também a vontade de “gozar com toda a gente” sem cair na caricatura. Entre parisienses perdidos e caçadores cheios de contradições, o filme observa, acima de tudo, através da comédia, um país dividido.


Como surgiu a ideia para o primeiro filme e depois para esta sequela?
O primeiro filme é muito autobiográfico. Eu era o parisiense que ia à caça — tinha os dois defeitos. E com o confinamento houve muitos parisienses que foram para o campo e descobriram o meio rural. A ideia foi contar isso. Eu chegava aos encontros de caçadores num Smart e era motivo de riso geral. Gozavam com os parisienses que não sabem o que é um cervo ou uma corça, mas também com os caçadores que exageram e acham que têm todos os direitos durante meses.
Essa oposição entre Paris e o resto do país é algo muito presente?
Sim, França é extremamente centralizada: é Paris e o resto. E isso é um tema cómico, porque toda a gente detesta os parisienses e também os caçadores. Têm isso em comum, e é por isso que o filme funciona.
Como reagiram os caçadores ao primeiro filme?
Gostaram muito, porque era credível. Não são caricaturas: são personagens humanas, simpáticas, com humor. O personagem do André tocou muita gente, porque há pessoas mais velhas que só têm esses momentos para conviver. E o do Benjamin também é universal, com esse lado mais “redneck”, mas com coração.
Como construiram essas personagens?
Os caçadores vêm da minha família — cresci com eles. São homenagens. E os parisienses somos eu e a minha mulher. O homem ainda não deu o salto para a vida no campo, mas a mulher já. Existe até a piada do filho do casal começar a falar com sotaque — surge o medo de perder a identidade parisiense.
A mudança para o campo levanta questões familiares?
Sim, sobretudo com os filhos. Quando lançámos o primeiro filme, muita gente estava a ir para o campo. Agora, alguns já voltaram. A educação, as amizades, tudo muda. Não é assim tão simples.
O filme tem algumas piadas arrojadas. Sente que hoje em dia, onde tantas vezes impera a cultura do cancelamento, é mais difícil fazer comédia?
Sim, existe uma autocensura e também uma censura real. Houve cenas que não pudemos incluir. A ideia é ser benevolente e gozar com todos. Se só atacarmos um grupo, não funciona. Toda a gente é ridícula e humana.
Mas houve limites concretos?
Sim. Por exemplo, tínhamos dois caçadores gays e queríamos mostrar um beijo no final. Não deixaram. Disseram que era “demasiado”, que o público não estava preparado.




Neste novo filme há também uma personagem rica vinda de Inglaterra. Houve inspiração real?
Não diretamente. É mais o cliché do novo rico. Mas também queríamos falar da privatização da natureza. Em França, muita da terra é privada. Quando há conflitos, fecham o acesso e as pessoas deixam de poder entrar nas florestas, ver os animais. É uma metáfora da apropriação capitalista: “isto é meu, eu fecho e acabou”.
Isso liga-se a conflitos reais?
Sim. Existem tensões entre diferentes tipos de caça e classes sociais. Os mais ricos isolam-se com cercas. E deixa de haver um espaço comum.
Acha que o capitalismo está a afetar as relações familiares?
Sim, existe uma mudança. O dinheiro ganha importância, o coletivo perde força. Não é só neste filme, é um tema geral. Mas não é inevitável.
Pensam em continuar esta história com mais sequelas?
Sim, é possível. Estamos a trabalhar rápido, quase como uma série. Gostava de levar os parisienses de volta a Paris, ver o que acontece depois, se têm filhos, como os educam. Há muito para explorar sobre o mundo rural atual.
Era importante ter atores conhecidos no elenco?
Sim, claro. Especialmente porque alguns já tinham trabalhado temas semelhantes, como os caçadores. Há uma ligação direta com o público.
Têm novos projetos?
Estamos a adaptar uma peça de teatro, há outro projeto sobre viagens de autocaravana e também uma comédia sobre padres católicos que têm filhos. Temos interesse em temas que “incomodam”, que mexem um pouco.






