Em cartaz no Brasil, país pelo qual milita em nome da igualdade social, com Cine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral, Chico Diaz, um dos mais prestigiados atores da América Latina nos palcos e no audiovisual, vive atualmente uma aventura à moda portuguesa, filmando em Lisboa de boleia nas páginas de José Saramago (1922-2010). Foi ele o escolhido pelo cineasta João Botelho para protagonizar O Ano da Morte de Ricardo Reis, algo que pode ser definido como um ensaio sobre lealdade (à pátria, à amizade e à poesia) a partir da relação entre um ás da lírica, Fernando Pessoa (1888-1935), e seu heterónimo, Reis. Chico viajou no dia 14 de março e filma a todo vapor, calhamaços de páginas.
Numa conversa com o C7nema, encontrou a questão: o que mais te surpreende na estética e na figura de Botelho? A resposta veio cheia de carinho: “Na pessoa dele, surpreende-me o humor, o afeto e a alegria com que conduz o processo. É um garoto aos 72 anos, com enorme carinho e respeito pelos atores. Na estética dele, chama atenção o apuro rigoroso no seu vocabulário e na sua gramática na reafirmação da sua linguagem e surpreende-me o profundo conhecimento da mise-en-scène para o plano e câmara. A decupagem dele é surpreendente também“.
Astro de cultos dos ecrãs brasileiros como Corisco & Dadá (que lhe deu o troféu Candango, em Gramado, em 1996), Chico nasceu no México, há 60 anos, fruto da união da tradutora Maria Cândida e do teórico de comunicação paraguaio Juan Díaz Bordenave. Mas a sua metodologia de atuação sempre exultou brasilidade, não apenas politicamente, mas no seu esforço de dar voz a marcas regionais do continente populacional que é o Brasil: ele filmou de Norte a Sul. Para encarar o aclamado romance publicado em 1984 por Saramago e fazer jus ao esplendor narrativo do único prémio Nobel de literatura da Língua Portuguesa, Chico mergulhou nos estudos.
Cine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral
“É uma história que remonta a um momento histórico no qual ventos fascistas sopram sobre Portugal, de um jeito parecido com que o mundo vive na contemporaneidade“, alerta Chico.
As suas leituras para o projeto, um empreitada luso-brasileira, produzida cá por Clélia Bessa e, lá, por João Botelho, cineasta de Lamego, começaram faz tempo. As notas e reflexões de Chico se espalham por rodapés de antologias poéticas e cadernos. “Sei que Botelho viu-me a fazer teatro lá em Portugal, vivendo Drummond, numa peça que o ator e diretor Antonio Pires montou. Mas, ainda assim me pergunto por que chamaram um ator brasileiro para um projeto dessa importância? Já que confiaram em mim… há que se cuidar, há que estudar. O Saramago se apropriou de Pessoa e deu carnalidade a ele, uma vida própria. Fora isso, ele se aproximou de uma série de temas da realidade portuguesa daquele tempo, meados dos anos 1930, como o avanço de Mussolini na Europa, o que gera uma série de poemas furiosos. A lusofonia é cheia de símbolos. E há aqui, no guião, uma quantidade inenarrável de texto para se memorizar. A palavra escrita precisa ser bem dita nos cinemas“, diz.
Caberá ao ator ser Ricardo Reis, um dos heterónimos de Pessoa (Alberto Caieiro e Álvaro de Campos são os outros igualmente famosos). Interessado em ter uma persona mais cientificista, racional, Pessoa deu a ele o direito de assinar versos como “Quando há alguma coisa de belo a dizer em vida, esculpe-se; quando há alguma coisa de belo a dizer em alma, faz-se versos“. Na trama de Saramago, adaptada por Botelho, Reis dá adeus à sua estada no Brasil, para onde se muda em 1919, e volta para a Lisboa de 35, para se despedir de seu criador, que acaba de morrer. Mas este, tem uns nove meses sobre a Terra, antes de ser esquecido, que espera gastar com seu alter ego.
Botelho vê em Chico uma força cénica singular
“Para um grande romance do Saramago é preciso um grande actor. O Saramago permite que o actor que faça de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, tenha sotaque brasileiro, pois viveu 16 anos no Brasil. Chico Diaz é um grande actor de novelas, de teatro e de cinema. Gostei imenso da peça que ele fez cá em Lisboa com encenação de António Pires. Gostei imenso do método de trabalho e dedicação dele em palco. É um monstro de trabalho. Não havia melhor escolha“, diz o cineasta português.
Para Chico, atuar é desbravar heteronímias. “Sou uma pessoa extremamente feliz, por Ricardo Reis e pelo meu ofício. São tantos heterónimos vividos. Agora, felicita terem me convidado a atravessar o Atlântico a bordo da nave lusófona”, diz Chico, que formou-se em Arquitetura e também é pintor. “Como ator, convivo com heterónimos de mim mesmo desde os 18 anos. Fui outros Chicos ligados a geografias bem diferentes da minha“.
O cronograma de O Ano da Morte de Ricardo Reis se espalha por dois meses, coordenado pelo produtor António Botelho, filho do diretor. “Filmamos de 25 de março a 27 de maio, entre Lisboa e Coimbra, e, no elenco, destacam-se portugueses como Luís Lima Barreto, Catarina Wallenstein e Victória Guerra“, diz. Mas depois de 38 anos de experiência em sets, Chico tem a percepção precisa do que o set precisa dele. No audiovisual, ele também brilhou na TV, em novelas como Paraíso Tropical (2007) e Velho Chico (2016), e será visto este ano, na HBO, na minissérie The American Guest, de Bruno Barreto, como Marechal Cândido Rondon (1865-1958), o defensor dos índios. Ainda este ano, Chico será visto no filme Montanha-Russa, de Vinícius Reis, que define como um argumento poderoso.
“Esse convite de Botelho, envolvendo Pessoa e Saramago, traz para mim um reconhecimento que nunca tive mesmo na seara do cinema de autor“, orgulha-se o ator, que marcou o teatro brasileiro à frente de A Lua vem da Ásia, baseado em Campos de Carvalho (1916-1998), com o qual ficou dois anos a viajar pela sua nação. “Tentei durante muito tempo filmar esse texto. Foi uma experiência definitiva para mim, que me deu preparo físico e tranquilidade para este novo trabalho, em Portugal“.


