Danny Boyle sobre ‘Ink’: “O jornalismo é uma das forças principais de qualquer civilização”

Danny Boyle leva Ink a Veneza e revisita a ascensão de Rupert Murdoch, o poder dos media e o preço humano de transformar jornalismo em espetáculo.

A competição do Festival de Veneza arrancou com o mais recente filme do britânico Danny Boyle, Ink, que recua a 1969 para acompanhar o período em que o jornal The Sun, adquirido por Rupert Murdoch e entregue ao editor Larry Lamb, iniciou a transformação que o levaria ao topo da imprensa popular britânica. Mais de meio século depois, a história chega ao cinema com atualidade, olhando para o poder dos media, a erosão dos limites éticos e a velha batalha entre o informar e conquistar o público.

Nesse sentido, e adaptado da peça de James Graham, nas mãos de Boyle, Ink lança o espectador num jogo frenético sobre poder, cinismo e ambição, onde cada movimento de câmara, trabalho da montagem e do desenho de som parece dialogar diretamente com a voracidade do universo retratado.

Presente pela primeira vez na competição de Veneza, o próprio Boyle reconheceu na habitual conferência de imprensa dedicada ao filme que a intenção nunca passou por fazer do magnata Rupert Murdoch um vilão unidimensional. “Não queríamos representar Murdoch como um monstro”, explicou o realizador de filmes como Trainspotting, 28 Dias Depois e Slumdog Millionaire em Veneza, recordando que o australiano representou inicialmente “uma lufada de ar fresco” numa sociedade britânica rígida e profundamente marcada pelo “establishment”, antes dessa aparente rebeldia conduzir progressivamente a um território muito mais sombrio. “No início, fomos todos cúmplices dessa viagem”, observou Boyle, sublinhando que o filme, ao contrário da peça teatral, acompanha de forma mais direta a transformação e as consequências do caminho seguido por Murdoch e Larry Lamb. 

Ink | Guy Pearce e Jack O’Connell | Créditos: Anthony Dickenson STUDIOCANAL SAS

É na ambiguidade que alimenta Ink que Murdoch, interpretado por Guy Pearce, percebe a mudança social em curso e encontra em Larry Lamb (Jack O’Connell) o homem capaz de transformar essa intuição numa máquina de vender jornais. Para O’Connell, o ponto essencial estava precisamente nas consequências das decisões da sua personagem. “Há um custo, um custo humano”, afirmou o ator, acrescentando que para o seu papel, mais que estudar o jornalismo enquanto profissão  interessava-lhe perceber “qual era o custo humano” de abdicar dos princípios, dos padrões profissionais e da privacidade para vender um produto.

“Fazer um filme como este, com pouco dinheiro, não foi fácil por muitas razões”, contou Boyle, admitindo que havia a possibilidade de hoje em dia já não ser tão interessante seguir o fenómeno: “O filme é sobre a Grã-Bretanha, sobre Fleet Street, e já ninguém sabe o que Fleet Street significa. Quando dizemos que fizemos um filme chamado Ink, toda a gente pensa que é sobre tatuagens.

Já o criador da peça e argumentista do filme, James Graham, admite que o projeto foi um desafio enorme. “Trabalhei em televisão e teatro, mas, no cinema, tive de fazer alguma coisa diferente, por isso apoiei-me muito no Danny e na sua experiência. Trabalhámos intensamente no argumento”.

Admitindo que tem tendência para escrever peças com muita ação, James diz que trabalhou o diálogo da peça na adaptação “página a página” e que o filme não fala apenas da imprensa numa determinada era, mas do agora: “Fazemos muitas perguntas neste filme, mas não damos respostas”, afirmou, estabelecendo uma ponte direta entre aquilo que aconteceu há mais de 50 anos e a atual ansiedade em torno da verdade, das notícias falsas e da luta pela atenção.

É nesse ponto que Ink deixa definitivamente de ser apenas um filme sobre imprensa em papel. No final da conferência, Boyle conduziu a discussão até à inteligência artificial e à possibilidade de jornalistas serem substituídos por sistemas mais baratos e eficientes: “O jornalismo é uma das forças principais de qualquer civilização”, defendeu o cineasta, sublinhando a necessidade de existirem pessoas capazes de se erguer perante o poder e dizer a verdade, mesmo quando esta é extremamente impopular.

O Festival de Veneza prossegue até dia 12 de setembro.

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