Aproveitando-se (mais uma vez) da obsessão francesa em satirizar as disputas e confrontos entre tradição e modernidade, entre Paris e o resto de França, “Chasse gardee” (Época de Caça), de Antonin Fourlon e Frédéric Forestier, escapa à mediocridade recorrente da comédia à francesa que tem chegado às nossas salas, muito pelo evitar cair na extrema repetição das piadas, mas principalmente pela manutenção de um ambiente de sátira de costumes de tons farsescos e grotescos, em que as personagens mostram profundas ambiguidades e não estão entregues a uma visão simples e redutora da sua condição.
Esta história de um casal parisiense que, com tudo de contemporaneidade no seu estatuto neorrural, se muda para o campo e descobre que a sua casa está no epicentro de uma zona de caça, nunca tem medo de cair nos exageros, devendo tanto à velha comédia a la italiana (e francesa) como ao cinema americano (de Jerry Lewis a Todd Phillips, passando por Seth Macfarlane)- aquele onde Philippe Lacheau e a sua trupe cómica, La Bande à Fifi (a que se juntam Tarek Boudali e Julien Arruti), criadores de “Babysitter” e “Alibi.com”, atualizavam procedimentos e ferramentas cómicas de outra trupe francesa (Le Splendid). E por aqui, há mesmo um aceno a “Les Bronzés”, com a chamada de Thierry Lhermitte a cena como um advogado durão que não consegue escapar à hospitalidade dos “campónios”.
É que apesar de estarem prontos para uma “guerra” moral de costumes, a dupla de parisienses (Camille Lou e Hakim Jemili) tem também um conflito em si. Os “vilões” com que têm de lidar, principalmente nas figuras interpretadas por Didier Bourdon, Jean-François Cayrey e Julien Pestel, são extremamente afáveis e recebem-nos bem, ainda que estejam entregues a um pensamento arcaico de se agarrarrem às tradições como forma de colorir as suas vidas.

Um conjunto robusto de personagens secundárias, onde se destaca uma cínica agente imobiliária (Chantal Ladesou) e um médico pitosga (André Penvern), que parece chamar a cena os tiques do Mr Magoo, completam um naipe de personagens que consegue juntar o espírito antigo e o moderno para efetivamente entregar um conjuntos de sketches cómicos fundamentados no exagero, deixando os julgamentos para o espectador. E mesmo a necessidade de tudo terminar bem quando começa bem, num estilo tão moderno como antigo do “feel good”, não afeta o filme no seu compito geral, rindo-se muito com os clichês (e anti-clichês), mas não caindo na representação abusiva deles.
Por tal, “Chasse gardee” (Época de Caça) acaba por ser uma surpresa descoberta por entre gargalhadas, onde não faltam inúmeras referências cinematográficas, que vão de “Babe” a “Bambi“, passando por “Presas Brancas” e o já citado “Les Bronzés“.




















