Pegando emprestada uma frase de um poema de Vinicius de Moraes (“Dia da Criação”), a realizadora Alice Guimarães, responsável por curtas como “Entre Sombras”, evoca no seu novo trabalho de animação em 2D a dificuldade de uma mulher em poder tirar um bocadinho do dia para si, e para a sua criatividade, devido aos afazeres que a casa e os filhos impõem. 

E esse dia para a nossa protagonista é o tal sábado, que normalmente é um dia reservado ao descanso, mas rapidamente o eu criativo que puxa pela sua dedicação a si e à escrita, é rapidamente “apagado” com o acordar de duas crianças que vão exigir da mulher atenção e uma série de trabalhos invisibilizados quando não ocorrem num lavor profissional.

Desenhando maioritariamente numa escala de cinzentos que frequentemente atinge o negro, sempre cortado pela camisola de tons amarelados da protagonista ou por cores garridas que florescem as “suas viagens” mentais além dos afazeres, “Porque Hoje é Sábado” entra no universo de muitas mulheres que, depois de serem mães, perdem de certa maneira uma individualidade e poder de escolha, sendo pressionadas socialmente a esmagar os seus desejos para se reduzirem ao papel de mães e as serventes do que Simone Beauvoir apelida, como as notas de produção do filme nos dizem, aos trabalhos de Sísifo, uma figura que na mitologia grega que tornou-se conhecida por executar um trabalho rotineiro e cansativo. 

Estas são ideias que o cinema tem aprofundado nos últimos anos, numa busca não apenas igualitária, mas equitativa, como se viu até no recente filme checo “Karavan”, onde, numa entrevista ao C7nema, a sua realizadora, Zuzana Kirchnerova, expressava uma opinião que vincula o que também Alice Guimarães quer mostrar na sua curta: “Creio que na Europa existem muitos avanços na igualdade entre homens e mulheres, pelo menos enquanto elas não têm filhos. Depois de seres mãe, chovem opiniões sobre tudo o que deves ou não fazer com a tua vida”.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
porque-hoje-e-sabado-a-mulher-e-os-trabalhos-de-sisifoDesenhando maioritariamente numa escala de cinzentos que frequentemente atinge o negro, sempre cortado pela camisola de tons amarelados da protagonista ou por cores garridas que florescem as “suas viagens” mentais além dos afazeres, “Porque Hoje é Sábado” entra no universo de muitas mulheres que, depois de serem mães, perdem de certa maneira uma individualidade e poder de escolha, sendo pressionadas socialmente a esmagar os seus desejos para se reduzirem ao papel de mães