Condecorado pela cultura pop com a medalha da permanência no imaginário nerd pelo seu desempenho como heroico presidente dos EUA em Independence Day (1996), Bill Pullman teve a oportunidade de afirmar filmes de culto, em registos quilometricamente distintos, de Mel Brooks — Spaceballs (1987) — a David Lynch — Lost Highway (1997). Aos 72 anos, ganhou novo fôlego na carreira com a série The Sinner (2017-2021), na pele da personagem do investigador Harry Ambrose. Tem o seu quinhão de fãs, uma trajectória de destaque em produções independentes como Dear Wendy (2005) e Surveillance (2008), e em guloseimas industriais como While You Were Sleeping (1995), além da coragem para apostar em exercícios de realizadores oriundos do documentário. Trabalhou no Brasil com Jonathan Nossiter, em Rio Sex Comedy (2010), logo após esse realizador ter explodido em notoriedade com Mondovino (2004), a documentar iguarias etílicas. Agora une forças a Grant Gee, mago britânico do videoclipe, conhecido por exercícios documentais musicais como Meeting People Is Easy (1998) e Joy Division (2007), numa ficção cartesianamente precisa: Everybody Digs Bill Evans. É um reforço — e de peso — ao registo das biografias jazzísticas, como Miles Ahead (2015), com Don Cheadle, e Born To Be Blue (2015), com Ethan Hawke.
Pianista de excelência rara na arte de teclar, William “Bill” John Evans (1929-1980) viveu dias de colapso em Junho de 1961, durante uma passagem por Nova Iorque, quando enfrentou uma perda devastadora. À época, tocava com o que considerava ser o seu trio perfeito. Contudo, após a morte trágica do seu baixista Scott LaFaro, num acidente, Evans ficou traumatizado pela dor e inseguro quanto à possibilidade de continuar a tocar. Entrou numa espiral em que a heroína e a autocomiseração surgem como espectros zombeteiros na sua jornada, até decidir procurar o pai, Harry.
Everybody Digs Bill Evans, que valeu a Gee uma nomeação ao Urso de Ouro — e causou excelente impressão na plateia da 76.ª Berlinale — confia o papel central ao norueguês Anders Danielsen Lie (actor associado ao cinema de Joachim Trier), mas retira o melhor partido de Bill Pullman. Este encarna Harry Evans, a errática figura paterna de Bill, que bebeu meio mundo, criou confusão, desrespeitou a esposa, teve múltiplos casos, mas que, no momento decisivo, soube fazer o que apenas os bons pais — mesmo os imperfeitos — conseguem. Laurie Metcalf, no papel da personagem da mãe de Bill, Mary Evans, é igualmente notável sob o preto e branco — dos mais apolíneos — da direcção de fotografia de Piers McGrail.
Pavimentado por essa cinematografia austera, Gee entrega ao público um retrato profundo e introspectivo de um jazzista lendário, sustentado por uma interpretação pautada pela subtileza construída por Anders Danielsen Lie para traduzir vazios e incertezas, sem necessidade de redenção. É um painel de lutas internas, estruturado com tridimensionalidade pela sua personagem central. O debate sobre heranças familiares erráticas ganha tonalidade livre com a entrada de Pullman em cena, numa interpretação que recorda, em certos momentos, a explosividade de Robert De Niro. É um Bill Pullman em devir De Niro.
Esse bastidor sentimental ajuda a compreender quem Bill Evans foi para o jazz. Gee tomou consciência da sua obra melódica ao ver uma fotografia do pianista e mergulhar num dos seus LP de vinil, onde foi tocado pela sua genialidade. O músico estudou música clássica antes de se mudar para Nova Iorque, em 1955, onde rapidamente ganhou reconhecimento como instrumentista inovador. Em 1958, juntou-se ao sexteto de Miles Davis, contribuindo decisivamente para o álbum Kind of Blue (1959), considerado um dos discos mais importantes da história do jazz. Após deixar a banda de Davis no final de 1959, Evans formou o seu próprio trio com Scott LaFaro e Paul Motian, gravando álbuns icónicos como Portrait in Jazz (1959), Explorations (1961) e os registos ao vivo no Village Vanguard (1961), que se tornaram referências incontornáveis do género.



















