No meio de declarações de amor à versão de 1933 de King Kong e a reflexões sobre o uso de arquivo na arte de documentar, Peter Jackson aproveitou o seu Rendez-vous com Festival de Cannes para consolar os fãs, há muito carentes das suas ficções, ao anunciar o novo projeto: “Prisoners of the Sun, a segunda parte da trilogia baseada nas BD de Tintin, que Steven Spielberg e eu iniciámos em 2011, vai acontecer. Há sempre algo a inspirar-me a filmar”, disse Jackson, durante uma conversa de quase 1h30, na sala Debussy do Palais des Festivals, com o jornalista Didier Allouche.
Novas viagens à Terra Média estão por vir. Há um clima de batalha prometido por The Lord of the Rings: The Hunt for Gollum, derivado da franquia O Senhor dos Anéis (2001–2003), realizado por Andy Serkis, que interpretou Gollum nas longas-metragens originais.
“Cogitei a realização, mas pensei que seria mais interessante ver essa trama narrada pelo próprio Gollum, figura que Andy conhece como ninguém. Quando O Senhor dos Anéis foi idealizado, o nosso Gollum seria feito em animação. Andy apenas daria voz, mas, aos poucos, os planos mudaram e a sua presença cresceu”, explicou o cineasta de 64 anos, nascido numa Nova Zelândia sem grande tradição audiovisual, mais familiarizada com a fantasia televisiva, como a série Thunderbirds. “Não revejo as três partes de O Senhor dos Anéis há cerca de 20 anos, mas muita gente continua a gostar. Os Beatles, em 1968, quiseram adaptar o livro que inspira a saga. Foi na época de 2001: A Space Odyssey . Stanley Kubrick parecia então a escolha certa para dar a esse universo um olhar mais realista”.
Essa versão nunca avançou. Ficou apenas na imaginação dos “quatro de Liverpool”, revisitados por Jackson no documentário Get Back (2021), realizado após They Shall Not Grow Old (2018), sobre a I Guerra Mundial.
“Esse documentário nasceu quando encontrei, na Nova Zelândia, imagens a preto e branco, riscadas, de soldados da I Guerra. Perguntei-me o que poderia acrescentar àquele arquivo. Percebi que ali estavam pessoas reais. Ao colorizar esses registos, devolvi humanidade às imagens. Quando filmei as sequências de batalha de O Senhor dos Anéis, a lógica foi semelhante. A cada dois takes de luta, desviava a câmara para Aragorn, Legolas, Gimli ou outro herói. Era preciso enquadrar pessoas. São elas que fazem o público envolver-se no confronto”, afirmou Jackson, que recebeu uma Palma de Ouro Honorária na abertura do festival.
Elijah Wood, intérprete de Frodo, marcou presença no encontro. “O Elijah ajudou-me a fazer o filme que queria. Foram 266 dias de rodagem para concretizar a trilogia. Como a Nova Zelândia não tinha experiência em produções desta escala, não sabíamos o suficiente para ter medo”, recordou o cineasta, vencedor de três Óscares em 2003. “Depois de The Frighteners (1996), precisava de um projeto que explorasse a tecnologia de efeitos visuais que desenvolvemos. Foi aí que O Senhor dos Anéis se tornou o meu rumo”.
Coube a Jackson adaptar a obra de J. R. R. Tolkien em duas trilogias, incluindo O Hobbit (2012–2014). Hoje, versões integrais destes filmes estão disponíveis em plataformas como HBO Max e Prime Video.
“Nunca estive numa posição em que me oferecessem algo que não quisesse filmar”, afirmou Jackson, que também não teme a Inteligência Artificial: “Temos de saber lidar com a IA. Só isso. Não acredito que nos vá destruir”.
O 79.º Festival de Cannes decorre até 23 de maio.

