Num momento em que a política francesa passou por uma “guerra civil” eleitoral, onde frentes populares se criaram para combater a ascensão da extrema-direita ao poder, um filme que questionasse as reais origens daqueles que se assumem como 100% franceses, mas que na prova de DNA descobrem que têm múltiplas origens, tinha potencial para produzir uma comédia interessante sobre conflitos familiares, guerras culturais e velhas lutas de classe.
Porém, no final de “Oh Lá Lá!”, o que salta à vista é um objeto simplório que carece de originalidade e cujo humor, terrivelmente medíocre e sem qualquer subtileza, se constrói a partir de clichés que se amontoam há décadas na sociedade francesa, e que trazem à baila um cheiro a naftalina do baú de preconceitos que começou a ser enchido nos anos 1960 e 1970 (onde nem a “Mala de Cartão” de Linda de Suza escapa à menção).
Seria até interessante a explosão e desconstrução desses mesmos clichés, para depois existir algum tipo de reconstrução, mas o filme, na sua ambição comercial desmedida, onde finge falar muito abertamente sobre o racismo, mas evita temas anexos (como a imigração), apenas quer divertir rapidamente o público com um amontoar de preconceitos xenófobos, expostos de tal ordem que caem no ridículo. Talvez, na visão do cineasta, o ridículo seja a melhor forma de combater essas ideias, não sendo necessário nada mais. Será mesmo assim?
Não haja dúvidas que escrever uma comédia e fazer rir é muito mais difícil que escrever um drama. Na tristeza, olhe-se para o sentimento de perda, a morte ou a culpa, existe uma maior universalidade de nos entristecer e fazer chorar. Fazer rir, conteúdo, não é assim tão universal, e se pegarmos nos tópicos referidos acima e tentarmos fazer humor com eles, só aqueles que se deliciam com uma boa dose de humor negro vão aplaudir, enquanto todos os outros ficarão entre o estarrecido e irritado. Por outro lado, se uma comédia tem ambições de fazer refletir ou ter impacto na sociedade, o uso de clichés, sem a tal desconstrução e reconstrução, produz apenas alienação no espectador, ou, na pior das hipóteses, o reforço ideológico dos preconceitos que se tentam contrariar.
Em “Oh Lá Lá!”, o namoro de um jovem casal, François (Julien Pestel) e Alice (Chloé Coulloud), reúne duas famílias no palácio aristocrático de Frédéric Bouvier-Sauvage (Christian Clavier), um homem fascinado com a sua linhagem nobre e com as suas vinhas “com história”, e da sua esposa de raízes venezianas, Catherine (Marianne Denicourt). Na outra família, burguesa, temos Didier Bourdon como Gérard Martin, dono de um concessionário, e Nicole Martin (Sylvie Testud), uma dona de casa órfã. Se no início as conversas do quarteto são circunstanciais, a tentativa de imposição de superioridade social rapidamente faz mudar a atmosfera amigável da reunião. As coisas complicam-se ainda mais quando os “pombinhos” surpreendem os familiares com testes de DNA, os quais vão mostrar que todos eles têm origens fora da esfera gaulesa.
Christian Clavier e Didier Bourdon são uma dupla de atores com excelente timing cómico, e são bem acompanhados por Marianne Denicourt e Sylvie Testud na tarefa de nos agarrar com as suas tiradas e manias no início do filme. Porém, quando o humor apenas se torna uma repetição exaustiva das mesmas piadas, tudo se torna entediante, não servindo concretamente para o que se dispõe: fazer rir e refletir sobre o ridículo dos preconceitos.




















