Um ano depois de sua passagem por Cannes como integrante do júri oficial – aquele que deu a Palma de Ouro a Hirokazu Koreeda e seu Shoplifters -, Robert Guédiguian, artesão da crítica social no cinema francês, deve voltar ao festival em 2019, agora do outro lado do balcão audiovisual: o seu nome é um dos mais cotados para a competição da 72ª edição do evento, agendado de 14 a 25 de maio. O
anúncio das atrações do menu cannoise será feito no dia 18 de abril. Leitor de Marx desde a adolescência, em Marselha, ele empregou as lições do velho barbudo nas filmagens e na montagem da 21ª longa-metragem da sua carreira: Sic Transit Gloria Mundi. O título é uma expressão em latim usada em ritos de sucessão de papas. A ideia de que “transitória é a glória do mundo” norteará a incursão do realizador de Marie-Jo e os seus dois amores (2002) e As neves do Kilimanjaro (2011) pelo cinema noir.
“Só na edição vou ter certeza do material que tenho, mas o desejo é de fazer uma espécie de melodrama noir, explorando a questão da solidariedade e da falta de caridade no nosso tempo“, diz o cineasta de 65 anos, mundialmente reconhecido como um cronista das mazelas sociais da Europa, em entrevista ao C7nema em Paris.
Definido na Internet Movie Database só como Gloria Mundi, o projeto noir do diretor foi um dos assuntos discutidos no 21º Rendez-vous Avec le Cinèma Français, evento organizado pelo órgão audiovisual do ministério da Cultura da França, a Unifrance, que usou o Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles, como fórum para a promoção do cinema de autor. Cerca de 75 filmes foram falados por lá, incluindo o drama que deu a Guédiguian os prémios SIGNIS e Unimed no Festival de Veneza 2017: Uma casa à beira-mar (La villa).
“Vira e mexe, recebo, por Facebook, um recado de brasileiros a quererem discutir política ou apenas sendo carinhosos“, orgulha-se o cineasta, que começou a filmar em 1975, tendo a atriz Ariane Ascaride, com quem é casado desde 1975, como estrela de toda sua obra. Igualmente constantes nos seus filmes são os atores Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan: “Não é equipa, é família“, explica Guédiguian, que faz uma análise sobre o dever da arte nestes tempos de intolerância.
O seu novo filme, já em montagem, é um noir com elementos de folhetim. Onde entra Marx aí?
Ele entra como fonte de distanciamento e de lucidez. Ando na companhia desse senhor desde 1968, quando O Capital me deu a perceção de que a ideia da luta de classes como motor da História é uma forma dialética de identificar quem são os antagonistas. Antes havia burguesia e proletariado. Hoje, existe aquele que tem uma propriedade e aquele que não tem nada a perder. E entre eles há a contradição histórica que leva à dominação. Este meu novo filme dá voz à essa contradição a partir de um olhar para o facto de que o servo hoje concorda com o patrão, ri do que o patrão ri. Escravidão começa assim. Vivemos tempos de uma submissão servil crescente, em diferentes bases da sociedade.
Falando em dialética, houve um tempo em que o cinema se dividia entre filmes políticos e filmes para o mercado, sem ideologia de levante. Hoje perpetra-se, mesmo nas searas mais combativas do cinema, a ideia do “filme de género”. O senhor, que é um cineasta de causas sociais, volta-se para o noir, um filão de mercado. O que justifica essa incursão?
Trabalhar na fronteira do género dá-me a possiblidade de ampliar os meus interlocutores. Transformaram o conceito de “cinema político” num rótulo pobre, que costuma ser aplicado a narrativas que operam na base do inconformismo, da indignação. Mas a ideia de “filme político” pode ser usada até para os filmes dos super-heróis de Hollywood, uma vez que há uma ideologia de mundo neles. Um filme político, cru, sem qualquer brecha para o humor, o amor, o suspense, vai ter uns 50 espectadores. Um filme de tons políticos que se vende como comédia ou drama alcança o triplo disso. A necessidade de o cinema se abrir para o diálogo com públicos mais amplos não significa fazer concessões, abrir a guarda. Significa pensar no espectador a partir das regras que ele conhece e gosta. Seguir regras não diminui a vontade de transgressão. O diretor de teatro Jean Villar tinha uma frase ótima sobre isso: “Elitismo para todos”.
Qual é o enredo de Sic Transit Gloria Mundi?
A luta de classes e as suas metamorfoses neste mundo de redes. O roteiro é uma investigação sobre a concordância entre o discurso do patrão e dos empregados, do ponto de vista de quem explora e de quem é explorado. É um filme com muito diálogo, pois essa é uma forma de valorizar o que o cinema tem de precioso: o elenco. Os atores são a essência de uma ficção. E a palavra é um dos instrumentos deles. O silêncio é o verniz dessa ferramenta. Mas só vou ter a certeza do que realizamos com a projeção no material editado.
Existe heroísmo num cinema politizado como o seu?
Herói é a pessoa que pensa no próximo. E essa pessoa está no povo.
O que um homem politizado como o senhor vê de mais ideológico na linguagem do cinema?
O cinema é mais um instrumento de fabricação de ideologias, que, se for usado de modo dialético e com respeito ao próximo, pode alimentar reflexões em vez de gerar transes. A arte funda um povo. Mas essa fundação deve estar associada a um espírito crítico.
![]()

