Ao contrário do que se passava com Poppy, a professora de bem com a vida interpretada por Sally Hawkins em “Happy-Go-Lucky” (2008), a nova personagem brilhante da fauna de “gente como nós” do inglês Mike Leigh, Pansy, a protagonista de “Hard Truths”, parece um pavio de dinamite perenemente aceso. Para ela explodir, basta um estalo. Uma vez que o vencedor da Palma de Ouro de 1996 (por “Secrets and Lies”) costumava perseguir aforismos nietzschianos na sua dramaturgia (mesmo na suas criações mais sociológicas), é difícil não citar as Três Metamorfoses do Espírito. É um conceito usado por Nietzsche em “Assim Falava Zaratustra”. Na sua teoria, a condição perpétua do viver, entre os seres racionais, caminha por uma Fase de Camelo, na qual carrega-se a corcova do “tu deves’, ao se aceitar tudo de bom grado, na plena submissão. Há, por margem oposta, a Fase do Leão, na qual, irritados com as contradições da existência, rugimos um “não” contínuo para a sociedade, para nós mesmos. Essa é Pansy, que, na colossal interpretação de Marianne Jean-Baptiste, leva a plateia às gargalhas (mas de nervos) com o seu mau humor.
Lembram-se de Michael Douglas em “Falling Down” (1993), aquele tipo de entrar em fúria por mínimas ranhuras? Pansy é tipo isso, mas sem uma arma. A sua boca é o seu fuzil. Se ela passa numa loja de colchões e vê alguém a deitar-se para testar o produto, ela estoura, mesmo sem ser vendedora do estabelecimento: “Vais comprar? Se não vais, por que te deitaste?”, rosna ela. A sua ida ao dentista é ainda pior: zanga-se com a doutora quando a pinça roça a gengiva. No trato com o filho, Moses, ela é uma granada sem cavilha. Basta encontrar as cascas da banana deixadas pelo rapaz na cozinha. Com o marido, ela vocifera igual (ou pior). Tudo enerva Pansy. Ela até se justifica, desabafando no único ombro com o qual mantém a calma, o da sua irmã caçula, Chantelle (Michele Austin, em estupenda atuação), dizendo: “Estou cansada. Estou tão cansada”.
Com movimentos da câmara sinuosos e discretos, abrindo-se muitas vezes aos closes, em planos longos, Leigh não deseja dar muitas justificações para esse cansaço. Como é comum nos seus painéis afetivos, como “All or Nothing” (2002) e “Naked” (1993), as suas “Comédias Humanas”, cabe ao público preencher as lacunas devidamente pontilhadas. Percebe-se a fadiga de Pansy de muitas formas. Elas passam pelo machismo, por vetores de exclusão raciais (“um rapaz desses a andar pela rua vai ser parado pela polícia, que ataca negros”, diz a respeito do próprio filho) e pela ausência da mãe. Essa parece ser a sua maior dor, que explode na lembrança de quando era forçada a comer proteínas (tipo carne enlatada) à força.
Como a mana mais velha, Chantelle tem lá as suas feridas, mas exorciza todas elas numa rotina profissional intensa num salão de beleza. Quando cuida do cabelo da sua irmã rabugenta, ela aguenta muitas queixas e muita resmunguice. Apesar disso, a sororidade entre elas, somada a um fraterno acolhimento, supera qualquer birra. A partir dessas duas figuras, que se completam, Leigh faz a minuciosa radiografia de um mundo suburbano à inglesa, sem fish and chips, mas repleto de frango panado e pasta de amendoim. São iguarias de uma cultura fast food, consumista, que traduz a falta de tempo daquelas pessoas de olharem nos olhos umas das outras. Isso cansou Pansy e conduziu-a a uma fase de tolerância zero. De novo, Nietzsche aparece: “Endureça e se faça diamante”. Mas Pansy virou uma pedra. Só que na sequência em que cai nas risadas, quase num pranto disfarçado de riso, essa pedra rola, e leva-nos junto com ela. A montagem elegante de Tania Reddin ajuda a dar fluidez a esse rolar, numa edição que sabe ser serena, para nos permitir observar implosões, desmontes e desmanches.




















