“Happy Go Lucky” por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Quando era mais novo, a minha mãe costumava perguntar-me se eu era feliz. Na altura, não podia sequer entender o significado ou importância de tal questão, dando portanto uma resposta bastante descomprometida.

A questão volta a ser colocada no novo filme de Mike Leigh, tanto na tela como fora dela, no pensamento de cada espectador que se encontre já maravilhado com o que assiste.

Vemos primeiro Poppy Cross a andar de bicicleta, a dirigir-se espontaneamente para uma livraria. Lá, nota num livro intitulado “The Road to Reality” (“O Caminho Para a Realidade”), e voltando a pô-lo no seu lugar, responde para si mesma com um “Não queremos ir para lá”, rindo-se. É um esplêndido arranque para um filme com o claro objectivo de nos desligar da realidade por duas horas e nos levar de volta até ela com um novo olhar.

Imediatamente nos percebemos que estamos perante uma pessoa diferente das outras. Com 30 anos, vive há quase dez anos com uma colega de quarto e de profissão, diverte-se tanto na discoteca como a construir máscaras para as crianças da escola onde dá aulas, e acima de tudo, parece adorar o que a vida lhe tem para oferecer e tirar, com um optimismo desconcertante e contagiante.

Quando a sua bicicleta é roubada, esperamos um momento de grande dramatismo. Mas Poppy sente pela bicicleta apenas tristeza por não se ter despedido dela a tempo e não rancor por quem a tirou. De tal modo que para não a substituir por uma nova, decide finalmente ter aulas de condução com um instrutor facilmente irritável e com um modo deveras peculiar de ensinar a olhar para os espelhos do carro, encarnado por um brilhante Eddie Marsan. A química e o contraste entre estas duas personagens é um dos pontos fortes do filme.

Poppy, com a sua “felicidade” constante e sobretudo com a sua vontade de pôr um sorriso nas pessoas que a rodeiam (incluindo os espectadores, ou sobretudo eles), fez-me lembrar Amélie Poulain. E o efeito que ambos os filmes tiveram sobre este espectador é deveras semelhante, com as devidas distâncias.

Numa das personagens mais apaixonantes que o cinema contemporâneo nos trouxe, a britânica Sally Hawkins, injustamente ignorada quer pelos Oscars quer pelos próprios BAFTAs (prémios da academia britânica), é simplesmente luminosa e acima de tudo, tal como Audrey Tautou e a sua Amélie, nunca transforma a sua Poppy numa mera caricatura ambulante.

Mérito também (ou acima de tudo?) de Mike Leigh, que como é usual, assina tanto o argumento como a realização, e mais uma vez com o seu realismo típico, consegue aqui resultados bem melhores que o anterior “Vera Drake”.

Será a felicidade poder apreciar a beleza de um céu nublado? Hoje, ainda não saberei a resposta à questão colocada pela minha mãe noutros tempos. Talvez respondesse com mais certeza o oposto do que respondia há dez anos atrás. Porém, sei que precisamos de mais Poppys… aliás, precisamos todos nós de sermos um bocadinho Poppy para de facto apreciarmos mais a nossa estadia aqui. E precisamos de mais filmes como este, sem dúvida.

“Happy-Go-Lucky” é um hino à vida em forma de comédia falsamente leve. Absolutamente indispensável.

9/10

 

André Gonçalves

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