Inspirado nos versos de Mario Luzi e na ideia de que, atingido um limite extremo, a dor pode transformar-se no ponto de partida para outra vida, Nessun dolore marca o regresso do cineasta italiano Gianni Amelio ao tema da imigração, desta vez fora de competição no Festival de Veneza.
E é um regresso porque, trinta e dois anos depois de Lamerica, Amelio troca a imagem dos albaneses que atravessavam o Adriático em 1994 por uma Roma contemporânea onde um homem, Davide, um vendedor de livros usados, se cruza com um pequeno rapaz marroquino, abandonado “nas suas mãos”. Davide rejeita o pequeno e, após um acidente, é empurrado para uma espiral de culpa que o leva, pouco a pouco, a transformar a sua habitação num refúgio para migrantes.

“O fenómeno da migração tem hoje dimensões trágicas”, afirmou o realizador na conferência de imprensa em Veneza. Para Amelio, atualmente com 81 anos, aquilo que há três décadas podia ainda ser encarado como um movimento migratório entre países próximos tornou-se “o problema dos problemas”, chamando inevitavelmente à responsabilidade um dos líderes mundiais. “A este propósito, quero chamar à questão, sem sequer precisar de o nomear, porque todos sabem quem é, o atual Presidente dos Estados Unidos. Creio que ditou, talvez inconscientemente, também ao resto do mundo um comportamento suicida, além de fratricida.”
Desenvolvendo as críticas a Donald Trump, Amelio diz que o comportamento dele é “suicida porque os Estados Unidos da América sempre foram um lugar de acolhimento de todos os povos”, o que representou durante séculos o símbolo da democracia. Agora, segundo o realizador de Campo de Batalha, acontece precisamente o contrário. A Europa e as suas políticas e “desunião” foram também outro dos alvos de Amelio, pegando no recente caso de Ceuta como exemplo: “Este não é um problema que possa ser enfrentado por um único país. Não pode ser a Espanha ou a Itália a assumir sozinha este enorme movimento de almas e corpos. É necessária uma Europa que funcione, uma Europa coesa. Repito uma frase que Michele Serra [jornalista e escritor} escreveu há algumas semanas, talvez há um mês, numa das suas crónicas: para acolher basta o coração; para integrar é necessária a política. E essa política tem de ser unitária e europeia. Esperemos que a Europa acorde.”
Já quando questionado sobre a experiência de estar pela primeira vez fora de competição em Veneza, Amelio fala num “sentimento de profunda libertação”, depois de ter estado oito vezes nessa posição e de integrar quatro júris diferentes. “Estar pela primeira vez fora de competição liberta-me de uma ansiedade que normalmente nem sequer faz parte do meu caráter. Nós, cineastas, não somos cavalos que têm obrigatoriamente de correr uns contra os outros.”
Da dor individual para a consciência do outro

É na passagem da dor individual para a consciência do outro que Nessun dolore procura o seu eixo. Alessandro Borghi, que interpreta o papel de Davide, descreveu a sua personagem como alguém que, perante uma tragédia, decide assumir para si uma responsabilidade talvez maior do que aquela que efetivamente lhe pertence, procurando pelo caminho uma forma de redenção através dos outros. “O cinema deve levantar questões que têm a ver com a individualidade, mas, neste caso, têm muitíssimo a ver com a sociedade, com a responsabilidade, com a indiferença, com a empatia.”
“Davide, a personagem de Alessandro, é, no fundo, um pouco como nós”, explicou Davide Serino, argumentista do filme. “Tem uma vida tranquila, tem trabalho, tem a sua casa e vive numa espécie de apatia serena semelhante à nossa. E é precisamente por isso que pode tornar-se um catalisador deste mal mais vasto, quase cósmico, que depois conduz ao acontecimento que põe toda a história em movimento.”
Já Valeria Golino, que interpreta o papel de uma professora universitária que trava amizade com Davide, destacou a particularidade de voltar a trabalhar com Amelio, alguém que admira desde os 18 anos. Segundo ela, Amelio parte da realidade para rapidamente a deslocar para outro território que nada tem a ver com o naturalismo: “Tenho uma espécie de adoração e reverência por ele, ainda hoje, mesmo depois de termos trabalhado juntos e depois de o ter visto trabalhar. Tentei perceber e interpretar aquilo que ele queria de mim, e nunca correspondia ao meu primeiro instinto. Eu começava sempre num determinado lugar e ele pegava em mim e levava-me para outro.”
O Festival de Veneza prossegue até ao dia 12 de setembro.

